terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Passeio à chuva





- Baseado em acontecimentos reais -


- Eh pá! filha da pu...

-Hey!!

Levantou o pé ensopado de fresco, sacudiu a perna e saiu do passeio para a soleira de abrigo a seco da monção. Olhou para a mão e manga do casaco que pingavam havidamente, suspirou-se molhado e virou-se para a voz que lhe interrompera a indignação, a ira... a fúria...

- Acho que era mais do que justificado - apontou para o pé

- Eu nem chapéu tenho... tou aqui parada há dez minutos ensopada, tenho peças de roupa a fazerem-me comichão em sitio que não me atrevo a dizer e a madame molha-me o pé...

- Molhei a meia pus o pé! molhei a mei...

- MEUSDEUSQUEPIADATÃOSECA!

- É um dom que tenho... e a chover como tá ter alguma coisa seca...

-OHMEUDEUS PÁRA!!! se me fazes rir... fico com mais comichão!

- Inveja, eu se me começo a rir fico com dores no peito... - fechou o chapéu - achas que vai abrandar?

- Com a minha sorte? não. - Sorriu e olhou para o relógio - Tens pressa?

- Não, tenho cerca de 50 minutos para encher chouriços... estava a pensar ir até ao Saldanha, ver se encontrava um livro para ler enquanto espero

- Eu vou para o Saldanha!!! leva-me!!

- Ao colo?

- Estúpido! debaixo do chapéu!

- Por instantes... pânico...

- Tás a insinuar alguma coisa sobre a minha formosura???

- Não! tou aleijado no braço... também não sei o que tens debaixo do casaco, podes ter...

Ia dizer qualquer coisa estúpida mas calou-se, entre contemplar a moça a abrir os botões do casaco revoltada e dizer qualquer coisa...

- mas tu estás de saia? com este tempo?

- Os collans são quentes... mas ok, admito que a saia é motivo pelo qual estou com comichões e nem te atrevas a perguntar onde!!! já tá provado que sou deveras transportável ao colo?

- Sim calma, o problema é o meu braço...

- Acho bem, foi horrivel controlar a gula no natal e passagem de ano... juro-te que te gamava o chapéu e bazava... há temas que como mulher me são sensíveis... mas vamos?

- Onde?

- Ao saldanha!

- Mas eu não te conheço... e tem a sua piada saber que tás cheia de comichões...

Chamou-lhe parvo, que era muita estúpido, ele reflectiu na sua capacidade de precisar apenas de trinta segundos para uma mulher lhe chamar nomes, era um dom...

Deixou que ela lhe desse o braço, necessidade de maximizar o espaço sobre a protecção ténue mas critica do chapéu debaixo da monção que se abatia sobre eles.
Fintaram inclinados sinais de transito, transeuntes achapelados mas com uma enorme ausência de educação - ou de noção de espaço, se não inclinam a porra do chapéu é fisicamente impossível passarem os dois ao mesmo tempo!

- Vamos atravessar pelo metro, é mais práctico

- Vamos atravessar porque?

- Para ir ver do livro...

- Podes ver no Monumental...

- Tens razão, tens uma livraria ao lado da fonoteca se não me engano...

- Bem, do que estás à procura?

- Qualquer coisa do género livro de bolso

- Os Maias... edição de bolso? se queres uma recomendação... ando a ler um que estou a adorar, é de uma escritora conhecida e é sobre vampiros...

Parou, baixou o chapéu e fitou-a lá bem nos olhos - tu tás a gozar..

- Hey! tou a falar da Anne Rice!! ahaha, posso ser loira mas ainda tenho uns quantos neurónios...

Deixou que terminasse de rir no abrigo do chapéu, findo o riso indignou-se por a ter molhado por uma singela piada de má literatura, levou a mão direita à haste do chapéu segurando-o firme e arriscou - é que prefiro de longe os filmes...

Respondeu-lhe que mulheres a fazer piadas é como homens a fazer tricot, não faz sentido e o resultado nunca é o mais apresentável.

- Volto a estar tentada a deixar-te aqui e fugir-te com o chapéu... mas mais ao estilo de furto violento...

- E depois eu identificava-te como loira, cabelo encaracolado ensopada debaixo da roupa e com comichões na...

- Não fales nisso!!! eu tava concentrada a não pensar... aaaaah foda-se! espera... comichões onde?? tu achas que eu tou com comichões em que sitio?????????

- eheh, eu não sei... espera...

Levou a palma da mão as costas dela, pressionou um pouco sem ser invasivo, desceu até ficar um pouco acima das ancas e subiu até meio das costas

- Aqui - pressionou-lhe as costas com o indicador- estás de corpete, a junção do corpete com a camisola.

Corou, apontou-lhe o indicador e desviou-o na direcção do saldanha tentando não se rir ou admitir a derrota.

- Comporta-te, ainda nem fomos apresentados.

- Realmente, eu sou a Sandra...

- Tu és o quê?

- Sandra, e sofro de Anatidaephobia...

- Tens noção que tinha sido este o momento em que nos apresentava-mos? era suposto ser um momento sério... mas preferiste ... o que é Anatidaephobia???

- xiu... ele pode estar a ver...

Bateu com a mão na testa e riu-se, embateu acidentalmente num transeunte que pescutava uma montra na Avenida da Républica, pediu desculpa e entrelaçou de novo o braço

- Vamos que estou a ficar apertada de tempo

- Pensei que não tinhas pressa, paraste umas 3 vezes para ver sapatos...

- Isso não conta, de resto vim sempre a andar... tenho uma amiga à espera e ela ... olha, tás a ver o polo verde? é o carro dela!

- Tu consegues ver o carro da tua amiga daqui???'

- Não consegues ver daqui?? está mesmo atrás do autocarro!

- mesmo atrás do autocarro... ok...

- Não estava lá o autocarro quando olhei! afinal como te chamas?

- Fábio António Aguilar...

- Dizes sempre o teu nome em espanhol?

- O verdadeiro? não, mas tenho um cartão com este a dizer- latin lover...

- E Funciona? Dares um cartão com esse nome a dizer Latin lover?

- Não sei, só tenho um cartão, não dei a ninguém para não ficar sem ele...

- Mas isso é estúpido! porquê que fazes um cartão se não é para dar?

- Porque a piada é dar o cartão, a pessoa ri-se e tal e aí dou o verdadeiro e profissional.

- Dá-me um verdadeiro e profissional...

- Não!

- Não porquê?

- Porque assim ficas tu com o poder de chegar a mim quando... cuidado com a poça, quando nos separar-mos, passas a ter como me comunicares ou chegares a mim... eu avisei-te com a poça, não te queixes.

- Tenho as botas arruinadas... queres atravessar comigo até ao carro?

- Não sei, podia aproveitar já tares mais ou menos entregue e seguir em frente, escusava de atravessar primeiro para o parque de estacionamento e depois atravessar para o Monumental

- Eh lá, mas que antipático!

- Antipático?? eu trouxe-te das avenidas até ao Saldanha toda seca.. quer dizer, descontando o que já estava préviamente molhado, sem supervisão masculina é natural que...

- Que eu a 10 metros de me separar de ti volte a ter a forte vontade de te agredir com o teu chapéu, vá, da-me o cartão Fábio António Aguilar

- Latin lover...

- Sim, isso, dá-me o cartão! não sejas teimoso...

- Não sei... não sei se é boa ideia...

- Posso ao menos ver o cartão?

- Para quê que queres ver o cartão?

- Para ter a certeza que existe e... olá! entro já espera um minuto, e ter a certeza que não me estás a mentir

Fitou-a e abriu o casaco, retirou a carteira e abriu-a. vasculhou e tirou um conjunto de aproximadamente 5 cartões, 4 cinza e um preto.
Ela esbugalhou os olhos e puxou o preto do molho e entrou no carro sem lhe dar tempo de lhe estender a mão para reaver o cartão- a opção era deixar cair a carteira e o contéudo no alcatrão molhado.

Viu-a trancar a porta do carro, levar o polegar ao ouvido e o mindinho ao queixo - eu ligo-te.

Viu o polo verde arrancar, ficando de chapéu preto só no meio da estrada.

- A gaja gamou-me o cartão errado...




Nota I - Anatidaephobia é o medo de estar a ser observado por um pato.

Nota II - Não sofro de Anatidaephobia, mas é uma piada temporal, diz-se e a pessoa ri-se em casa quando gloogla o que quer dizer a palavra.

Nota III - Menti no sitio onde ela tinha a comichão, era numa cota altimétrica inferior, mas confirma-se que estava de corpete.

Nota IV - O cartão preto tinha o logotipo da minha empresa, uma caveira e dizia - Arquireal, Projectos do caralho lda.

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