quinta-feira, 15 de março de 2012

Believe you me... I do believe

E eu já sei onde estou.
Sinto o que sou, por onde caminho e sei quase por magia o que após a esquina irei encontrar.
Há música no ar à minha volta.
Há um travo a um momento pelo qual já passei que me deixa na ansiedade de acelerar os passos e vencer o mais depressa possível a distância.

Mas, com a certeza do que sei que vai acontecer, com a certeza de que o momento será meu... deixo os meus passos levarem o seu tempo.

Talvez tenha um certo receio, não sei.
Aquele momento tão ansiado que quando finalmente chega diante de nós nos sentimos pequenos, como quando ao sabor do oceano aguardamos pela ondulação e quando a vemos surgir... a onda afinal é um vagalhão...

Mas eu já sonhei com ela antes...

Contorno a esquina e chego por fim ao largo onde me esperam, onde sinto que a irei encontrar.
Uma multidão de vultos negros preenchem o espaço.
Aqui e ali mesas, música ao longe num palco, reflexos e contornos desenhados a dourado, figurantes sem rosto.
Quem me acompanha aponta-me onde nos aguardam, distingo ao longe primeiro o aceno, depois o rosto.
Aproximo-me da mesa, sou conhecido e conheço quem me sorri.

E é então que a vejo...

Sentada, de vestido castanho.
De perna cruzada, cabelo solto sobre os ombros mas preso atrás das orelhas mostrando... prendando-me com o seu rosto... alheia as pessoas que circulam ao seu redor

Reparo numa pulseira de prata que lhe desliza pelo braço direito quando leva a mão ao seu copo sobre a mesa.
Ela repara em mim e eu fujo dela o meu olhar.
Fico em desconforto, mas não inseguro.

Sento-me numa cadeira à sua esquerda, com um lugar de intervalo entre nós.
Encosto-me para trás na cadeira, encho o peito de ar.
Esboço um sorriso triunfante à George Valentin, ela fita-me e deixa de sorrir.

Chamam-me pelo nome por entre a multidão.
Levanto-me e deixo-a para trás na mesa, onde a encontrei.

Regresso mas não me sento.
Contorno a mesa e coloco-me atrás dela, meio descaído para o seu lado direito.

Baixo-me até ao nível do seu ouvido...

- Acho que ainda não te falei...

Digo e beijo-a suave no rosto.
Ela sorri, morde ligeiramente o lábio e volta a sorrir.

Sento-me.
Bebo, riu e faço rir - e faço-a rir o que me sabe a triunfo - converso e ela fita-me esquivando-se de mim quando olho para ela
As pessoas que nos acompanham conversam comigo, conversam com ela.

Mas eu estou atento aos seus gestos.
Ao seu pescoço...

À curva das ancas e das costas sobre a cadeira onde está sentada, e eu divago sobre a sua pele debaixo do vestido...
A noite, as pessoas, o tempo passa por nós.
Levanto-me para partir.
Despeço-me e vejo que se encontra ao meu lado.
Demasiada gente à nossa volta, pouco espaço.


E eu dou por mim com as mãos nas suas costas...
 para dar aquele aconchego de posição... e deixar alguém passar.

Ela sorri.

Estamos lado a lado como se fosse a coisa mais natural de fazermos
Ela veste o casaco, desliza a mão pelo meu braço e afasta-se.

Uns metros depois pára, vira-se para mim e levanta a mão direita dizendo-me adeus.

E eu vejo-a ir embora

Vejo-a olhar para mim antes de a perder de vista

E então, novamente... ela sorri...





...E eu acordo.

Um comentário:

Bibinha disse...

A tua descrição das coisas é simplesmente fantástica...
Gosto de acreditar que alguns homens podem pensar assim como tu.
Espero que não sejas o único.