sábado, 28 de junho de 2008

Tango a Bella Charis


Ah nome pomposo para um texto...
difícil manter a expectativa... afinal... és tu soma das expectativas que carrego Charis, soma e total, modelo e juiz...
Vento... que alguém de ti um pouco desdenha, vento fresco - imagem que tanto adoro desfilhar em texto- rodopia em meu redor, como um doce que se sabe irá desfazer na saliva até se perder... efémero mas mais real que a tua dolorosa ausência... teimosa ausência. mas afinal... sois mulher.
em comparação temo ser injusto, ao reconhecer somente traços do teu rosto, do teu nariz fino mas vincado, na tua tez pálida mas prestes a encher-se escarlate das tuas exaltações.
muito sexy essa tua imagem.
como se estivesse ausente durante o concerto do Galliano, ninguém sentado ao meu redor, nem ninguém em palco senão tu, em forma de melodia.
flutuando como o tal já citado vento até mim, sobre mim, puxando-me para um espaço qualquer onde somos mais que matéria, somos... espaço.
Não sei se foi ao pintar-te em quadro, ao escrever-te em livro, ou somente ao reconhecer-te no sorriso de alguém que até gostava que fosses tu... não sei se foi quando a senti tão perto do meu peito, o seu calor, a tensão do baloiçar ao som da música, a ideia de que ao menos tentar não lhe pisar os sapatos era simpático, e depois, num futuro não muito distante, esse breve lampejo teu na terra, na minha terra, ela fosses tu.


quando os teus itens - sim porque tive que criar itens de aproximação, há que ter critério rapariga - se vão preenchendo em minha surpresa na perfeição, da-se o fenómeno da retracção, da dúvida, ou mesmo da pura cagufa de quem receia simplesmente saltar e mergulhar para a onda sem receios, desconforto da sensação que é a onda certa, é deitar na prancha e remar remar até levitar-mos e dar-mos por nós de pé... é a dúvida que se instala após uma tão longa espera... ah charis, mulher, femea... ou simplesmente tu.


para quando sentir aquela imagem que tenho tua, o teu cabelo dourado entre os meus dedos da mão esquerda - porquê esta imagem não sei, mas tenho-a.
ou então aquela outra fugaz de um qualquer acordar ao teu lado - ou tu em meu redor- e a meio do teu corpo fitar-te ao saber-te sorrir.

sentir-te sorrir.
(principalmente se isso fosse a meio de um beijo...)

(daqueles demorados e badalhocos)

(badalhocos porque sou um romântico...)

a musica termina, ou sendo neste caso um tango, explode para o seu épico final - e para nos prostrarmos em abraço majestosos numa posição Tangueira....

não há palavras, mesmo que as invente presunçoso, que descrevessem tal imagem... não há telas onde descubra essa mesma imagem.

só fragmentos teus que apanho aqui e ali, a espaços, pequenos gestos teus para não desanimar na minha demanda pela tua pessoa, gestos generosos as vezes, frustrantes todas essas mesmas vezes... de tão perto e nunca um todo.... só os fragmentos que vós bela senhora na sua bondade... ah caraças...

tanto tempo na ausência que na presença sou um estranho.
peço-te que todas aquelas pequenas partes - os tais itens - se expandam, se confirmem e engrandeçam para ser mais facil acreditar, mais facil tanta coisa que agora é dificil senhora...

rodopiamos em abraço, acelaramos o movimento, e subitamento com a melodia encontramo-nos imóveis num qualquer salão - quiça aquele da fotografia em milão...

fim de música.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Fumo

Podia ser apenas um momento estranho, desconfortável como tantos outros. Rodeado pelo fumo no espaço escuro, pelos contornos sem rosto e de voz ténue.
não se lembrava do que bebia nem quando levava aos lábios o copo, mas isso não lhe era importante.
Percorria o olhar pelo copo sem o fixar, não concentrava a atenção no que quer que fosse fazia algum tempo. como se a mente adormecida se tivesse sentado num limbo qualquer distante e o corpo continuasse em piloto automático.
Acabou o que tinha no copo e pediu outro igual. Os dias acabam mas o momento continua sem cessar, e era um estado continuo já há algum tempo.
demasiado.
Seja como for, sentia-se menos mau do que antes. o frio e um pouco de chuva prendaram-no no exterior levando-o a fechar o blusão. o antes fora demasiado... visceral para dele se lembrar de bom grado, ou não sentir o alivio de apesar de vazio ser... tranquilo.
estava atrasado. Estava quase sempre atrasado, mesmo quando chegava antes do tempo era sempre depois do que previra chegar. sublinhou a nota mental em comprar um relógio.
achava-a uma gaja porreira, senão mesmo uma tipa altamente. era comum presentea-lo com um sorriso, seja debaixo de um bombardeamento de artilharia ou durante uma largada de touros.
Sentia por ela qualquer coisa primitivamente magnética... ou animalesca, mas era mais que vontade de cruzar e perpetuar os genes. gostava da personalidade dela. do ser conceptual dela, o que era uma situação inédita na história da humanidade, e como uma primeira vez, estava totalmente perdido na relação, era tudo de improviso e isso assustava-o.

- Cheiras a tabaco... tiveste com a outra?
- se a outra for o café ao pé do atelier... sim...
- ainda não namoramos e já me andas a trair?
sorriu e beijou-o no rosto, demorou-se como sempre o que o levava a exasperar pela proximidade do corpo dela, pelo cheiro delicioso, o cabelo que fugia e suavemente tocava na sua pele... sentia o impulso de a segurar e beijar como se a não extinção do mosquito equatorial disso dependesse.
- gosto dessa camisa... - disse deslizando com a mão pelo peito dele, puxando-o atrás de si- como está a chover acho má ideia ficarmos cá fora não achas? entramos?
acenou-lhe positivamente.
aguardaram a indicação da mesa, sentaram-se.
- temos que conversar, e já que estás sentado e já pedimos... já não foges...
- ainda nem começamos a namorar e já temos que conversar...
- piada... adiante, temos que conversar porque... tu és um gajo teimoso e tens uma barreira qualquer de fumo entre nós, está lá e não me deixa ver para alem dela senão uma ténue imagem... e odeio essa merda, portanto diz-me de uma vez que porcaria é que se passa contigo que já à umas semanas que começo a ficar irritada...
- ah... fumo?
- era metafórico... tens uma cortina de água... um cortinado de berloques do talho... preferes assim?
- gosto desses cortinados... tinha pensado...
- não comeces a fazer piadas que depois não paras - apertou-lhe a mão com intensidade sem a largar
- não te estou a perceber...
- olha... tens qualquer coisa que te atrofia a e não me dizes, algo que te deixa... com esse olhar como quem está noutro sitio qualquer...
- posso não o querer partilhar...
- podes, mas isso só iria querer dizer que tenho razão e há realmente qualquer coisa...
- não necessariamente, mas caso houvesse alguma coisa podia não a querer partilhar...
- tens mesmo a certeza que é isso que queres fazer - apertou-lhe a mão com maior intensidade
- eh pá... isto parece um interrogatório...
- chama-lhe o que quiseres... não sais daqui sem me dizeres o que se passa...
suspirou, olhou-a nos olhos e desbroncou-se.


Levou aos lábios o copo, sabia bem o que bebia, ginger- ale, em seu redor pela fraca luz continuava rodeado de contornos sem rosto... num espaço sem fumo que agora havia uma lei do tabaco... o que para sua pena retirava uma certa atmosfera clandestina ao lugar.
pediu outra ginger-ale, sentia a mente fresca, limpa como nos dias em que acordava cedo para ir correr para a praia e ao pé do mar era cercado por gangs de gaivotas ruidosas.
saiu do café e olhou para o relógio, de pele castanha, estava adiantado mas apressou o passo na mesma.
tinha perdido tanto tempo a escorregar num chão molhado sem cair, sem sair do sitio e a patinhar tudo à sua volta.
Chovia a espaços, e viu-a sem chapéu descer a rua na sua direcção
- chegaste cedo estúpido - puxou-o para si e beijou-o demorada nos lábios.
- ena, tanta alegria por me veres...
- cala-te - beijou-o novamente.
entraram e sentaram-se.
segurou-o pela mão e sorriu. apertou-lhe a mão ate receber de resposta um sorriso...
- faz hoje um ano...
- realmente... nunca mais senti dor ou qualquer actividade muscular na mão esquerda...
- ah sim? - ameaçou-o com um garfo sobre a mão que não largou - não devias fazer piadas idiotas comigo... já devias ter aprendido isso...
- e se não fizesse como te conquistava? sem a minha imitação de um koala alcolizado? sem a minha imitação do Dino Meira sob efeito de Marijuana...
- tinha muito melhor impressão de ti e levava-te mais vezes a minha casa... mas vamos ao que interessa...nós temos que falar...
- merda... outra vez!?!
- é mais ou menos sobre o mesmo... afinal nunca me explicaste e mudou tudo... tu mudaste... já não anda a neblina... os berloques... e eu não percebi... ajuda-me a perceber...
- se é porque não te conto tudo é porque te escondo... se te escondo é porque não confio, se te conto tudo e fica tudo bem é porque aconteceu alguma coisa... decide-te.
- já decidi... em fazer a tua vida num inferno até me contares...
- olhar que massada...
- num inferno asexuado... - sorriu maliciosamente
- foda-se.


- Falar é bom, desintoxica, materializa exteriormente o que está dentro de nós às voltas... e organiza essa mesma coisa para a conseguirmos explicar, depois de o fazermos, de falarmos, ela torna-se algo exterior e relativo a nós - como algo que contamos ou fizemos no passado.
depois disso temos a oportunidade de a deixarmos ficar nesse sitio - não perdendo a importância- ou a carregarmos connosco.
alguém que nos é importante e podemos desintoxicar essa situação... que não nos julga pelas coisas que achamos estúpidas - e até partilha a fantasia com um pónei, manteiga magra e um kinder surpresa- a partir dai é lucro.

ah... e tiveram sexo a seguir ao jantar...

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Pestana

Nada do que diga ou escreva consegue de algum modo transmitir o vazio que fica.
Por melhor que trabalhasse ou moldasse as palavras elas nunca conseguiriam fazer jus à dimensão, tão grande e tão tamanha que a pequena criatura cravou durante os seus dias, os nosso dias.
perdi-lhes o rasto... aos anos longos que fui presenteado com a mais alucinante e respeitável membro do sexo feminino que existiu para conhecer.
Haverá algum consolo de a ter sentido aninhada no meu regaço? o seu respirar tranquilo como não estivera até eu chegar, o acalmar gradual até a sentir partir de mim...
Custava-me olhar para os seus olhos, como se todas as luzes estivessem desligadas menos uma ténue ao canto da sala, custava-me aceitar que assim fosse.
14 anos.

Im only this far
And only tomorrow leads my way

Im coming waltzing back and moving into your head
Please, I wouldnt pass this by
I would take any more than
What sort of man goes by
I will bring water
Why wont you ever be glad
It melts into wonder
I came in praying for you
Why wont you run
In the rain and play
Let the tears splash all over you...


è como se chorasse à chuva Pestana.
Ciau

segunda-feira, 21 de abril de 2008

En la noche

... e após tanto tempo ausente, afinal como diria o Pauleta sobre queijo- a vida não é só bola... decidi-me dedicar mais às fatias

- pausa para reflexão sobre a frase do Ciclone dos Açores -

Começo... ou recomeço porque já tenho umas frases acima com uma referência futebolistica - LISANDRO LOPES... Lisandro Lopes... Lisandro Lopes...


e pronto.


Subiu para o palanque sobre o canal central. à sua esquerda a ponte... imagem real de um quadro, imagem imortal de Veneza. Estava a ganhar com avanço, sozinho no canal, no topo do seu posto, um vento forte e frio mas de bom humor invadia-o.
sabia-lhe tão bem... o estar ali sozinho, num instante quiçá magico, de certeza somente seu.
Trouxe consigo esse instante e acima de tudo esse de Veneza.


O vazio majestoso entre as margens arrepiavam-no, principalmente sublinhado com o facto de ter vertigens.
a camisola azul estava húmida, empapada com a água que flutuava das cataratas pelo ar.
fora importante a viagem, o fugir sozinho na South America Tour 2006 à procura... de algo.

Também não interessava o que procurava, nem se o ia encontrar... quando nos procurarmos a nós mesmo é acima de tudo tropeçarmos em algo que nos diga - sócio... telemovel...
É uma cruzada por um curto instante que tudo muda, pelo desarme do Lisandro no meio campo do porto após um Sprint de 50 metros, é o instante em que fazemos um acordo de paz a solo, tréguas com a mente onde nos perdemos em labirintos infligidos ou por mazoquismo ou por mágoa, ou por estupidez.
Nesse instante, em que não receou o tamanho, a altura e a sensação de pequenes diante das cataratas, aproximou-se do abismo, determinado.
Estendeu a mão para o vazio, sentido a água flutuar diante de si... densa...
Abriu os olhos, abriu e nesse instante pelo céu nublado o sol se impos, rasgando, iluminando as gotas que lhe envolviam a mão... nesse instante tocou no arco iris que se desenhou em seu redor...
foi imperador nesse instante, César, Napoleão, Lucho" el comandante"... foi grande... Foi Prometeu com o fogo dos deuses, foi o sorriso entre o cabelo louro que se prepara para nos beijar sem estarmos disso à espera...mágico...
...e esperto que manadas descontroladas de turistas asiaticos correram para a varanda onde se encontrava e zarpou dali para fora ligeirinho...

Concentrava-se nestes pensamentos quando um banano o puxou para o mundo real.
- da-me atenção xiça...
- não sabes que é um mito a ideia de nós estarmos realmente a ouvir quando vocês falam?
- ah sim?
- é mesmo... apanha-se umas quantas palavras chave e a partir dai faz-se um puzzle caso seja necessário dar a entender que se estava com atenção...
- ou seja... so me queres para uma coisa...
- pela companhia? pelas pevides que me compras? pelo presunto que a tua tia me trás sempre que vem da terra? por todas essas coisas my love...

levantou-se e deixou-a com um sorriso cínico e frustrado na mesa.

abriu a gaveta da aparelhagem, deslizou com a ponta do indicador sobre a lombada da coluna de Cd's do pai e desta um cd.

premiu play e aguardou, aguardou para lá do começo da musica a reacção dela.

- que raio de música é esta????
- Del shannon - runaway... não conheces?
-obvio que sim, mas não ouvia isto à... why... why why why... she runaway... and I wonder... meu deus! ao menos não é aquela da Cher que tás sempre a ouvir...
- a Cher tem músicas mágnifica...
Levantou-se, puxou as calças para cima e o cabelo para trás.
Saboreou o contorno do corpo dela desenhado pelo sol na transparência da camisa, suave, como um traço rápido desenhado a carvão que sai perfeito à primeira.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Lady in red... ou grená... ( Ou a sra de roupão)

Queria um bife, de vaca preferencialmente.
após tanto tempo perdido na companhia da ex namorada nos restaurantes vegetarianos que ela frequentava tinha qualquer coisa no sob-consciente que lhe dava a vontade de se empanturrar com carne sempre que ia almoçar fora.
sentou-se. Aguardou e pediu a lista.
Lembrou-se de uns meses antes após umas horas de confronto que perdera como sempre desabafar ao empregado com cara de quem precisava de soro devido à sub-nutrição - Quero um bitoque!
- não sejas parvo, estamos num vegetariano... come bacalhau à brás que gostas...
- e bacalhau é o quê?
- não é bacalhau... é um alho françês a fazer de bacalhau...
- bacalhau à brás ... sem bacalhau...
- de resto é igual... garanto-lhe, está muito bom - interviu o empregado
- tem ovo?
- claro que sim não sejas parvo - retorquiu triunfante sob o sorriso complacente do empregado
- então ainda é pior! o que são os ovos senão os bebes por nascer? crianças cujos sonhos vocês monstros destruíram para um bacalhau à brás que nem isso o é! recusam-se a matar animais crescidos porque é selvagem mas uma criatura por nascer... tudo ok! venha lá esse bacalhau...

"podia ser a punchline mas não me apetece, logo como consequência vou estragar isto... não que estivesse grande espingarda"

estava disperso, serviu-se da salada mas não se concentrava nem na conversa nem no que comia.
sabia que fora um acaso, um feliz mas absorvente acaso que agora o levava em passeio para a sua memória, a sua constante recordação como uma música que nos ficou na cabeça, não uma música que não gostamos porque a recordação era magnifica.

eis como lera a cena:
Provavelmente a amiga não estava a dar com a casa, ligara ou avisara de algum modo a dificuldade de encontrar o prédio apesar de estar na rua e tivera a necessidade de se expor na varanda da sua sala para acenar à amiga.
fizera-o de roupão.

quis o destino que nesse instante o tivesse notado e ir do lado de dentro do passeio e não do lado de fora, se tivesse a posição trocada com a do pai nunca teria olhado para a sua esquerda, para o segundo andar e nunca a teria visto de roupão...

Roupão grená.
fixou-se na imagem do cabelo que se soltara com o gesto, o contraste deste sobre a cor, sobre os ombros, e ela... fixando-o, capturando-o em flagrante, recolhendo o braço embaraçada, como se tingisse o rosto com a cor que a cobria.
Ténue. Rápido vislumbre do acaso. verde claro, sobre o grená revelante por um curto instante a descoberto o recheio, aaaaaaaahh mujer... endoideceu por esse instante de luxúria, de beleza tão grande e tão tamanha...
Mousse? sim pode ser, teria sido a mesma resposta se lhe tivessem perguntado se queria um biqueiro nos dentes ou se o Paulo Madeira era um beckenbauer incompreendido



Passaram-se os dias. uma força magnética levava-o a ir almoçar mais vezes ao mesmo sitio, ao mesmo restaurante onde as vaquinhas coitadas eram deglutinadas por selvagens... selvagens mas não hipócritas...

Passaram-se os dias e a janela não se abriu de novo, não se viu grená, uma burca, ou mesmo o batman.

passaram-se os dias, não a memória mas sim a sua presença... como se esta se tivesse ido sentar na sala já que estavamos cheios de fome que o bacalhau à brás era insipido como tudo na comida vegetariana - por algum motivo eles metem soja em tudo... sabe mal... mas sabe!


Girou o leite com café na chávena.
sentiu o frio dar-lhe um calduço quando a porta se abriu atrás de si e virou para esta a sua atenção.

Ela reconheceu-o primeiro.

Ela corou...

e tinha um casaco vermelho.


Gagejou o pedido, e sentou-se na mesa diante da dele, não resistiu a ficar rosto com rosto.

era uma mulher curiosa... ( se encontrarem uma que afirme não o ser e esteja a ser sincera... vejam a maçã de adão... só naquela....)

já tinha reparado nele muitos dias antes de fazer a bonita figura de roupão. reparara na maneira tranquila com que falava, como sorria... adorava quando o via com o blusão preto.

ok, já se conformara e resignara que tinha uma crush por ele... amor platónico ou resumidamente... Stalker... o que era crime.

quer dizer, não andava propriamente atrás dele, somente tinha reparado que por volta das 11h ele ia ao café e acabava por também a essa hora, mera coincidência óbvio, sentir a vontade de beber café... deve ser um fenómeno de massas que acontece todos os dias a essa hora.

apesar de desde que se pavoneara de roupão - que rica imagem que ele teria de si- na varanda ficara com vergonha e evitara qualquer tipo de aparição pública onde se pudessem cruzar.

deixaram-se estar mais tempo que o era suposto, mas como estava numa curta pausa ( que já durava à quarenta e cinco minutos) do trabalho, e por mais delicioso que fosse tê-la ali tão perto tinha que se ir embora, levantou-se e ela também, pareceu-lhe surpresa que ele se tivesse levantado no mesmo instante.

cedeu-lhe a vez para pagar, pensou que seria melhor dar a imagem de ser cavalheiro, o que era para que conste.

viu-a remexer por uma carteira que não encontrou no casaco, o rosto novamente avermelhado e sentiu que era o seu momento, o instante não só de marcar pontos como quiçá apagar o embaraço do fatídico instante.

primeiro como seria de esperar, recusou, teimou em recusar, mas sendo somente um café, e na promessa que depois poderia retribuir o café (encontro para o dia seguinte - who's the men!?!?!?!)
aceitou.

- não sei como te agradecer... não sei onde pus a carteira... ah..

corou.
corou com força.

- o que foi? o que se passa? estás bem? perguntou-lhe ao ver tal subida de sangue ao rosto...

- ah... já sei onde pus a carteira... deixei-a na cama debaixo do roupão antes de sair de casa...

segunda-feira, 17 de março de 2008

Meravigliosa Creatura

Quarenta e oito horas depois regressou ao local do crime. Entrou na cozinha onde tudo começara e deslizou os dedos sobre a bancada de pedra. sorriu no pensamento -aglomerado, não pedra pura ou um bloco como na mesa da antiga casa da sua avo.
ficou nessa paragem, nesse pensamento. ao centro da cozinha da avó uma mesa enorme, um bloco de marmore ja gasto com o uso e o tempo de quem muito nela trabalhou. tinha saudades dessa casa, dessa cozinha. de acordar para um café com leite que bebia ainda em piloto automático antes de encarar o frio da rua sempre a subir até à graça.
encostou-se na bancada e olhou em seu redor. O passaro saltitava curioso fitando-o, o sol entrava pela janela de batente e basculante e visualizou-a diante de si, no espaço vazio, recordou-a de casaco preto comprido, mãos nos bolsos e olhar de desafio, cabelo solto sobre os ombros, esvoaçante, adorava o cabelo dela.
Era angustiante a sua ausência, o recordar de algo tão bom e mágnifico...principalmente porque era uma emoção normal no afastamento, na ruptura, não quando tudo estava bem.
Estava-lhe tão entranhado o ser dela que rejeitava a separação fosse por que tempo fosse.
Controlava-se em não sufocar, em não se angustiar nessa distância, pois em breve, pouco mais de uma hora estariam de novo juntos, e seria presenteado com aquele sorriso triunfante que o domava e enfeitiçava.
como no dia do crime, da cozinha saiu para a sala, comprimentou o cacto que se concentrava na sua fotosintese diaria e sentou-se no sofá.
mais uma vez foi invadido de recordações.
o Calor do corpo dela na sua mão entre as roupas dela, a sofreguidão com que as tirava, as afastava para... sentiu-se a ficar com a taquicárdia que ela lhe dava e afastou a imagem da sua mente, levantou-se e procurou o telémovel.
Encontrou-o no quarto, o terceiro mas não ultimo cenário do crime, involuntáriamente repetia a sequência, cozinha-sala-quarto.
Tinha duas mensagens. Sorriu ao ler a primeira - "não percebi nada da tua mensagem, mandas-me citações de séries que não vi e tás à espera que perceba...se tas com saudades minhas diz logo..."- e riu-se da segunda - "AH! já percebi, és um tarado..."
Estranhou o silêncio na casa, não pelas cadelas que como sempre se comportavam como "gremlins at a pool party", mas pela ausência de música.
Era uma escolha fácil tendo em consideraçãos os seus ultimos pensamentos, Bryan Adams - thought I'd Died and gone to heaven.
Saiu do quarto e parou diante da porta da casa de banho, olhou para a banheira, cenário final onde se desfizeram das provas num longo banho de imersão.
Quando se termina uma relação da-se ou uma angustia porque se vai romper um ritmo, uma ligação até então segura que em principio nos sabia bem, nos aconchegava. por outro lado também se pode sentir o alivio de finalmente não perdermos horas com dialogos idiotas sobre séries lamechas de médicos ou a amiga disse que a outra disse que a outra fez qualquer coisa sobre a amiga que disse que a outra fez aquela coisa que a outra contou.
Em qualquer dos casos com o passar dos dias, dos meses, é chegado um dia em que surgirá o escolhido que irá trazer o equilibrio à força... chegará o dia em que independentemente de ser bom ou mau o terminar da relação sentimos o peso do vazio entre esse dia e o ultimo em que tudo se perdeu, sentimos o peso do tempo, o peso de haver todo um mundo que podia ter sido em comum e não foi, o peso de a gaja ter apanhado uma dst com um badalhoco qualquer e acharmos bem feita ou o ciume de a ver-mos em pequenas coisas que já não partilha connosco ou nós com ela. Acima de tudo há ausência da pessoa e era isso que sentia nesse instante, ausência com o peso de uma longa viagem, e isso preocupava-o e muito.
Afinal se lhe custava tanto assim em tão pouco tempo como seria se terminassem um dia?
caraças, tinha mesmo que mudar de pustura, esta pessimista era uma camisa que começava a picar-lhe no pescoço. Olhou para o rambo "o Cacto", imaginou-o de oculos e camisa florida sentado ao curtir o sol... e era esse o espirito, o rambo tinha razão! chill out and relax...CHILLAX!
Ligou a playstation, entrou na master league, preparou o timão que montara com o porto e deu um tratamento à-lá-marlon-brando no ultimo tango em paris a todos os que lhe apareceram pela frente " e sem manteiga!".


Chegou a casa dele e estranhou ser o irmão a abrir a porta. preparou-se para refilar mas notou a presença dos phones brancos que o ajudavam a entrar na "zona" quando jogava. não a recebeu porque não a ouviu.
Tirou o casaco, lentamente sem fazer barulho aproximou-se e sentou-se sobre ele sem aviso, frente a frente na cadeira.
ouviu o comando despenhar-se no chão enquando ele a puxava e envadia por onde quer que a sua roupa o permitisse, antes de poder falar já este a procurava em beijos atrapalhando-lhe as palavras
- Calma! não me... xiça, deixa-me falar, calma, não me vais receber à porta e agora tás a fingirque gostas muito de mim...
beijou-o, avisou-o que a porta do quarto estava aberta quando o sentiu a tentar desapertar o seu cinto. puxou-o pelo cabelo para trás, sorriu.
- calma, temos tempo e eu não vou a lado nenhum... e vais-me explicar primeiro as tuas mensagens...
lenvantou-se e tirou do casaco o telemovel.
virou-se mas sem que pudesse estrabuchar foi agarrada e levada pelo ar para a cama.
-o que escrevi na mensagem pode-se traduzir por um " Tu Gália, Eu César", agora cala-te e deixa-me fazer o meu trabalho.


Esforçou-se contra a sua vontade para não cair no cliché feminino e deu-lhe uns trinta minutos de descanso antes de lhe dizer que queria falar.
- já podes falar a sério comigo agora? - deitou-se em cima de dele.
- sobre o quê?
- sobre não conseguires falar sobre certos assuntos sem dizeres uma coisa idiota ou a gozar... como a da rainha Egypcia...
- ao pé de ti o cerebro para... eu esforço-me mas ele vai abaixo...
- então não és capaz de ter uma conversa a sério comigo é isso? mais vale desistir de ti? - tentou deslizar o corpo para o lado sem que ele a deixasse
- o que me queres perguntar afinal?
- oh, sei lá... queria que falasses comigo de coisas tuas... fantasias tuas sei lá.
- fantasias?
- sim... fantasias tuas que não envolvam vestires-te de coelho ou a Bonnie tyler...
- bem... tenho uma... acho que nunca a contei a ninguém...
- e vais-me contar!
- ok... estou numa sala de aulas com os meus colegas, e tenho uma minigun, começo a disparar... mas há um gordo que consegue fugir e vou atrás dele com a minigun...
- eu tava a falar de fantasias... eróticas!
- mas eles tão nús na fantasia!!!!!!

domingo, 2 de março de 2008

A dona do meu 18...

atraves do vidro, meio perdida no reflexo do sol mas suficientemente presente para lhe captar o olhar, a atenção, ao ponto de apenas por acaso não ter tropeçado nos degraus.
confirmou o numero da porta e entrou.
sentou-se o mais discreto possivel, primeira aula, turma nova, queria primeiro estudar o espaço, as facções sociais em confronto, quem era quem antes de tomar posição ou opinar sobre o que quer que fosse.
lembrou-se do Boss - you ain't a beauty but hey... you're alright, num pensamento sobre a rapariga que se sentou ao seu lado. sorriu, afastou da mesa desta os seus pertences libertando-lhe o espaço para que se sentasse ao seu lado.
subitamente, na penumbra da sala durante a projecção da construção de um museu em berlim, demasiado conceptual e teórico na sua opinião, quando vagueava o olhar pela sala em seu redor fixou-se num 18.
gostava do numero sem saber bem o porque de gostar desse numero.
era aniversário da avó a 18, assim como o da sua primeira namorada, mas porquê gostar desse numero? não tinha uma certeza ideia que o justificasse.
fixara a atenção apenas por segundos, instantes, e notou que dentro do casaco, acima deste lhe devolviam a atenção.
era a mesma rapariga que por pouco antes quase patinara antes de entrar na sala -teria sido épica a entrada
Morena de olhos azuis, cabelo apanhado, encontrou-o e fixou-o, sorria com o rosto todo, sem ser uma pornografia dentaria, um sorriso simples mas sincero.
atrapalhou-se ou atrofiou-se... ficou encavacado e desviou o olhar.
porcaria do 18, agora a rapariga iria ficar com a ideia que estava a procurar nela algo mais que um numero... bela imagem que estava a dar...
tentou controlar sem sucesso a curiosidade e olhou novamente para ela...
viu-a esquiva mas o suficiente para ela perceber que olhava de novo...
"sinceramente... parece que tas de novo na primária..."
lembrou-se da àgata, a primeira rapariga por quem se apaixonou no primeiro dia de aulas da sua vida... a primeira rapariga real por quem se apaixonou, afinal a namorada do He-man não conta nesta equação.
a àgata também tinha olhos azuis...
concentrou-se no museu em berlim, pouco práctico, raio de museu mais preocupado em dizer - olhem para mim sou uma cagadela de um arquitecto que não percebeu que museu é para servir a sua função - ser um museu- e não salas e salas e espaços ninjas para sair numa revista escrita por outros arquitectos ninjas a justificarem as cenas ninja que fazem ...


Como se tudo que o envolvia fosse uma visão, sentado ao sol de fim de tarde num dia porreiro de primavera, daqueles em que o vento não chateia mas refresca, não está sol demais mas aquece em lume brando, como uma namorada sem cordas vocais... era perfeito.
aumentou o volume da música para ouvir melhor o trabalho do piano de fundo sob a voz do Boss, thunder road...
A dona do 18 saiu da sala, via-a pela primeira vez de corpo inteiro, como se esta flutuasse no meio da multidão, viu-a soltar o cabelo sobre os ombros "let the wind blow back your
hair", fechar o casaco e ajeita-lo sobre o corpo.
antes que se virasse na sua direcção desviou dela o olhar, fixando-o em dois pombos que não disfarçavam o consumo exagerado de ecstazy ao som de trance psicadélico no seu andar pastilhado.
Passou diante dele, passo calmo sem pressas assustando os pombos. parou, virou-se na sua direcção e avançou.
sentou-se diante dele, na pedra ao sol.
-olá... - disse aguardando que ele tirasse os phones dos ouvidos - és novo na turma?
o coração batia veloz dentro do peito, estranhou a presença mesmo que intimamente a desejasse, mesmo que fosse bom demais para ser verdade, e caramba... acabara de conhecer visualmente a rapariga, não era motivo para estar assim surpreso, ancioso e... desejoso, desejoso como quem hà muito deseja uma coisa boa, como quem espera que lhe digam que vai ficar tudo bem " Don't turn me home again I just can't face myself alone again", e sentir esse desejo por alguém assim recente no seu mundo...
não percebia, não sabia porquê...
como se esperasse por um sonho neste mundo onde somos sombras e trevas segundo o Boss, mas somos desejo de um escape, que mesmo que não ilumine... oriente e guie... "Waste your summer prayin' in vain for a savior to ride from these streets"
-olá... sim sou... mudei de turma ontem...
- Joana... e tu?
apresentou-se, sorriu-lhe. sentiu vontade estremecendo com a noção do insólito e precipitado que o invadia... a vontade de a beijar, de a puxar para si e saborea-la, beija-la havidamente, percorrer e comprimir o corpo dela contra o seu... quiça possui-la ali mesmo...
acima de tudo te-la nos braços, como se isso tornar-se real qualquer coisa estúpida que estava a sentir por ela... pela joana segundo o que ela dizia - não lhe pediu BI ou documento comprovativo.
ela questionou-o sobre banalidades, estudando-o, quando as respostas seguiam as perguntas com fluidez atacou o que realmente lhe queria perguntar:
- porquê que sorrias para mim na sala? reparei que estavas a olhar para mim e estavas a sorrir... mas não era... sei lá... estavas a sorrir de uma maneira... querida... não sei...
- querida? maneira querida? eu? sorrir?
caraças, tinha sorrido? tinha tido alguma expressão estupida quando reparou nela na sala?
- não sei... tavas com uma expressão... oh... esquece...
pensou em responder - gazes filha, tava com gazes... - mas sentiu ser demasiado estupida a real explicação... o 18...
- não me lembro de tar a sorrir... mas sim, olhei para ti...
- e porquê?
- porquê que olhava para ti? pelo teu casaco... via-se que era malha da boa...
chamou-o estupido,sorriu... e como sorria... quis fugir dali, enfiar-se num sitio qualquer abraçando-se em posição fetal de modo a sentir-se menos... envergonhado, menos numa situação em que voltava a estragar tudo "Don't run back inside, darlin' you know just what I'm here for So you're scared and you're thinkin' that maybe we ain't that
young anymore", estava farto de fazer asneiras em pequenas coisas... principalmente de estar dominado com a presença dela...
sentiu os dedos dela na sua mão, levantou-se e puxou-o atras de si
- anda, vamos beber um café... eu deixo que tu pagues o meu...
generosa... ao menos era sincera... seguiu-a, com a proximidade cheirou-a, absorveu-a e como lhe cheirava bem... estranhamente não se lembrou de tirar da dela a sua mão e esta... não o afastou até que se tornou demasiado estranho estarem de mão dada " Climb in back heaven's waitin' down on the tracks, Oh, oh come take my hand"
sentaram-se, conversaram e esqueceram-se (ou não) de voltarem para a aula, como se retomassem uma conversa antiga e lhes fosse natural estarem um com o outro.
fazia-a rir, quer pelo prazer que tinha em ve-la esbugalhar os olhos e mais uma vez... presentea-lo com o sorriso.
subitamente, fitou-o e perguntou:
- conta-me algo... estranho de ti
- como?
- algo que não faça sentido de ti que tenhas...
- tu primeiro... para ver se percebo que raio de pergunta é essa...
- bem... - corou, rodeando o sorriso com um suave avermelhado muito muito, incrivelmente e magestosamente sensual avermelhar - tenho uma fixação com o numero 18... não sei porquê...



"It's a town full of losers, And I'm pullin' outta here to win"









Todas as frases que cito são parte da música(magnifica) Thunder Road de Bruce Springsteen a quem me refiro como Boss (piada ribeirinha que hà muito partilho com sra dona Ana Vieira... El Patron), e espero que quando ela subitamente o fixa para o dialogo final, estejam a ouvir a thunder road... minuto 4...
quase tão sublime como em pleno estádio de Alvalade após o golo do jankauskas a claque do benfica cantar (outra vez... outra vez... foi a festa co ... outra vez...)
ou para ser justo... a claque do porto a cantar (Campeões... Campeões...) mas isso nós cantamos sempre em todo lado e em todos os anos... já perde a piada...



a Joana da História é real e é dona de um casaco com um 18...
(e tem um sorriso... eh pa... )