quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Abre a janela do teu quarto mulher!

colocou a mão no peito. confirmar vida, prova que era humano, estava vivo e coiso e tal.
as mãos estavam frias, arrepiou-se, bom sinal.
era por alguém?
era com alguém?
era para alguém?
ou ninguém que se encontrava alí?


era humano ao menos, bom sinal talvez, prelúdio de grandes dificuldades...
graça e virtude nos seus desenhos, empenho e talento... pelo menos vontade.

o que já era muito bom.

qualidade é sobrevalorizada quando o que interessa é o convívio, é a piada que somente dois num jantar de trinta se desfazem a rir.

respirou fundo e deu as condolências às suas hesitações, foram uma boa companhia, fiel e presente durante muito muito tempo na sua vida, mas tal como aquela ex que nunca se calava... teve que as mandar abater.

tirou os sapatos
porra, descalçou-se e sem pensar...
correu pela areia até ao mar... a caminho desnudou-se camboleante, mas sem perder direcção ou desejo.

gelada, dolorosamente gelada no rosto primeiro em pequenas gotas, depois nos pés até mergulhar e todo o corpo estremecer, se soltar e viver estridente

cordão umbilical cortado, falta todo o resto.
oh se falta... todo um resto de anos a acumular pó até ao presente, até despir o casaco molhado num dia de sol

até a voz e a imagem diante do espelho... estarem finalmente ao mesmo tempo.
era tempo de coisas novas, diferentes...

ou da mesma coisa mas em diferente

mudar radicalmente de café e morango no gelado para morango e café

deixar para trás no tempo as meias-de-leite e pedir um galão

deixar de ser um canalha para as mulheres e ser somente um pulha, um pulha galante obviamente

como se ele já não fosse o mesmo, e alguém distante, observador isento de si mesmo, do seu passado
e tudo ter recomeçado, diante de si lápis de cor - dos comestíveis óbvio, e folha branca

era o momento que ansiava, o momento em que se libertava e arrancava para a curva antes da meta isolado e distante... mas acelerava

só porque podia acelerar...

e sentir o vento veloz no cabelo.

vestiu-se, meio molhado -o que isso importa, e afastou-se do mar...
sorria, sorria com o rosto todo, com todo o ser
era mais que humano, era energia e vida, era o que ia fazer antes de ter feito
era rodopiante e determinado, era grandiosamente pequeno no gesto que conspirara
um pequeno gesto.

um pequeno gesto criminal.
(afinal era uma doce delinquência, arquitecto a pintar nas paredes...)

fitou-se no seu reflexo, o seu rosto antigo como quem aguarda perdão...
pediu-lhe desculpa, mas tinha que o deixar partir...
depois dar-lhe-ia noticias, mas a decisão era final definitiva, e irreversível

(já tinha as mãos todas sujas de amarelo...)


bateu-lhe na porta de casa, não da rua como os estranhos, mesmo na madeira de quem não precisa de convite para chegar tão perto
aguardou.

sorriu-lhe

atirou-lhe um beijo sem pedir licença, invadiu-lhe a boca voraz mas ternurento até sentir que era reclamado e não um invasor
sujou-lhe roupa e cabelo, pele e rosto com as mãos de amarelo


entrelaçou-lhe os dedos na sua mão e arrancou com ela pelas escadas até à rua
contornou o prédio até ficarem na rua da janela do quarto dela, na rua onde tantas vezes aguardara vê-la na janela surgir... venenosa nos seus encantos
mulher demónio deslumbrante

- disseste-me sempre que gostavas de flores... e estava tudo fechado...


sábado, 11 de outubro de 2008

...Forever Young...

Algumas vezes era demais, muitas outras vezes igual.
algumas vezes dentro de água, olhos abertos...
algumas vezes era a melodia envolvente, mais que a batida...

era sempre estranho, aguardando algo que não vem.

era mais que este vazio cheio de coisas que não consigo totalmente compreender - ou não as quero.

opções minhas que me destroçam, que me magoam quando não as quero tomar, e sei que tenho...
memórias ou sonhos horríveis que sempre se lembram de me acordar, que me gritam aos ouvidos, que esmurram nos dentes sempre com aquele sorriso camarada de quem nos vai cravar o pequeno almoço.

como sempre...

dá vontade de agarrar naquela pessoa pela mão, rodopiar a sua fantástica silhueta em meu redor até não haver música que nos acompanhe, não haver motivo para ali dançarmos e ser apenas...
estarmos a olhar para o céu.

para sempre.

queria então eu ser eu nesse momento... ser esse momento totalmente - como a água envolvente...

é difícil envelhecer sem um rumo, sem porto azul de destino...

e eu...
à procura desse meu porto azul.


anda dançar com estilo... presença e força, volta para trás comigo no tempo, solta o teu cabelo e sorri

numa praia de areia fina, ou mesmo da grossa que nos faz cocegas nos pés...

onde o mar quebra mais forte e nos salpicamos ainda distantes...

nós ali... numa fotografia a preto e branco...

para sempre.

seriamos a tal melodia... música flutuante, no teu cheiro ao beijar o teu pescoço... ao morder o teu pescoço.

mas é coisa que não me pertence.

essa dança feliz, essa frase de quem diz que o mundo pode esperar... afinal, ainda estamos a olhar para o céu.

pertence-me os meus "para sempre" sinceros, e os falsos... em que acreditei.
onde me espalhei tosco.

já não é bom aquilo que foi, contigo, comigo, connosco e com os outros, com todos nós e a pestana.
já perdeu o gás a bebida, e sinceramente... se for para morrer como esta, dá aquele desanimo de pedir o mesmo outra vez.

Já não tenho tantas camisas engomadas no armário como antes...

já não tenho a paciência de me barbear...

já nem me recordo da letra daquela música catita que inventamos, aquela que terminava num teu solo esganiçado de voz...
já não me lembro sequer do teu nome mulher.

mas sei que dancei com estilo.... triunfante.

vamos morrer jovens ou viver para sempre?
será que a música é somente para os homens tristes? tocada por um homem louco para quem se enganou na sala e ainda não percebeu onde é a saída...
porquê que não conseguimos estar nesses momentos mágicos e ficamos tão presos naqueles outros que nos controlam... mesmo sendo no tempo distantes?

sei que gosto de "para sempre", como se fosse um selo de qualidade no produto, um sublinhar de empenhamento, mesmo que acabe no seguinte instante... ter sido verdadeiro na intenção.

sei que dancei com estilo... triunfante, e os meus para sempre era para sempre mesmo.

nem que fosse por uns simpáticos três minutos.

fui fonte de terno calor, daquele envolvente no pescoço, seguido de um beijo ternurento que diz que tudo vai ficar bem... damos a volta ao marcador na segunda parte...

Algumas vezes era demais, muitas outras vezes igual.

sempre o mesmo desfecho.

algumas vezes dentro de água, olhos abertos...

ou eu sozinho num plano paralelo, e o mundo todo distante.

algumas vezes era a melodia envolvente, mais que a batida...

que me raptava para o fundo da mente, onde ai... agora é difícil encontrar aquela tua deliciosa imagem...

como se fosses diamantes ao sol... e os diamantes... são para sempre.

bom era seres tu ao sol para sempre.

era sempre estranho, aguardando algo que não vem, como quem aguarda e não te vê passar.
(o que até teria uma sórdida, cruel e irónica piada)


ah... para sempre...

sábado, 20 de setembro de 2008

Direito de Resposta Cavalheiro...



Meu grande estupor...

tempo é coisa que não tenho, é algo que como tu me foge pelos dedos...
preferia o teu cabelo nestes, puxa-lo, despentea-lo, cheira-lo como se não houvesse amanhã.
é quase como se um de nós tivesse que perder esta guerra... e eu preciso de ti seja como for.

porquê que vieste aqui?

fizeste-me gritar contigo... tive uma péssima actuação, tão distante da pessoa de classe que te habituei.

tirando obviamente em situações onde criatividade, empenho e pulmão são mais valias, não propriamente portar-me como uma senhora.

seja como for é uma resposta à tua carta, ao teu tango a Bella Charis, não esperavas que o fizesse pois não?

acho que prefiro cair sozinha, sempre te manterás de pé espero, não eu que sem ti...
desvaneço-me, sou ninguém.

mas vamos à resposta que é para isso que estou aqui a escrever... depressa, mal e porcamente.
porquê adiar o assunto mais do que tenho adiado?
será que tenho a tua atenção agora?
será que agora que nada temos...
nem sei por onde pegar no bicho e tu não ajudas.


serás tu forte?

ou serei apenas eu fraca demais e tu preenches esse vazio na balança?

queria ter opção diante do meu rosto, um teste fácil de sim ou não.
preencher o nome, dizer aquilo que sinto sem abrir a boca - para não me sair asneira- e sentar-me ao teu lado, encostar-me e...
deixar o tempo passar.

estou a ser lamechas, mil perdões.

e ainda nem comecei a dizer o que ando à tanto tempo a organizar para te responder.

há aquela ideia de nos maus momentos, quando nos arrancam algo que gostamos de dentro, todo esse espaço... esse nada que se expande até não sabermos como o suster, é algo onde podemos colocar o que quer que nos apeteça lá meter...
é o teu lado positivo de falar das coisas.
acho que já perdi a ideia do que tinha para te dizer uns bons minutos atrás...
acredita, podes confiar em mim, era um texto arrebatador.

ias aplaudir-me em lágrimas, tombar aos meus pés, escrever-me odes de louvor, pintar-me quadros e ... espera um pouco...

já fizeste isso.

esqueci-me desculpa.

mas que era um bom momento para o português era.
tinha um começo vibrante e que te enredava, suspenso, linha após linha, palavra atrás de palavra...
uma piada para desanuviar, umas três ou quatro citações literárias, um verso da Tracy Chapman para dar ambiente, e no fim...
a minha esperada declaração de amor...

pena que me desorientei...

mas eu sei que ainda estás ai a ler, caramba, eu sei que estás sempre ai atento.
dizia-te que não quero mas mentia,
e mentir-te não sei.

Gostei de estar no teu quarto outra vez.
(apesar de estar deliciada por estares a dormir agora no meu)
ver aquelas duas telas brancas no chão ao lado do cavalete, à espera, aguardando que te levantes a meio da noite como sempre, as possuas desesperado por aplacar a ideia que te invadiu... que te tira o sono e que tens que ver real, no cheiro a tinta, nesta no teu cabelo e roupa, naquele teu sorriso cansado mas vitorioso de quem se superou.

gostei daquela tua piada quando entrei... simples mas sacana, como tu meu caro, como eu e tu...
como se aquele instante fosse encaixado noutros anos antes e tudo estivesse emocionalmente igual.
e eu não me sentisse assim culpada... preocupada... perdida.
aquela merda que me fazes, de olhares para mim em silêncio, espectante... eh pa... odeio.
corta-me fundo e destroça-me.
pára com isso... fico sem saber o que fazer... o que te dizer, o que ser diante de ti.

pára porque eu quero demasiado isso...
tenho medo que não seja real.

também não quero ser do tipo de pessoa que se apaixona, que se entrega cega e acha que está tudo bem.

não me apaixonei porque isso implicaria um começar a gostar, quando desde o nosso primeiro instante - quando te dei um pontapé sem querer - estava tudo certo e perfeito, eras tu e eu e mais nada, só os dois no mundo... ok... os dois e a porcaria do porto na liga dos campeões...
as vezes que reli a porcaria da tua carta, confesso que tem o seu estilo retro, carta amorosa é old school, abrires-me a porta para passar também... como se eu não soubesse que invés de educado tu aproveitas para inspeccionar o corte das calças de ganga... a qualidade do tecido no corpo...
tu só pensas nisso...



gostava de amanha acordar ao teu lado mas no teu quarto.
podias estar a rossonar como o porco que és quando dormes, mas estares ali ao meu lado.
olhar para o cavalete - onde glorioso se encontra há muito aquele quadro gigante que pintaste de mim - e ver ao lado deste não duas telas brancas mas; caprichosa e egoísta, quiça eu mesma...
nestas encontar um sorriso teu para mim, um galanteio...
até pode ser um pato desenhado a lapis de cera, um circulo com tracinhos a fazer de sol sobre uma casa quadrada com a chaminé o avião com as asas de lado...
desde que me diga de alguma forma que ainda está ai, que ainda estou ai no que sentes.

não é obrigatório ser obviamente eu como nos outros.

e sinto-me tão culpada...
e mesmo assim tenho estes caprichos, estes pedidos e... preciso de ti...
e tu...dormes meu boi.
tu tás aqui como se tudo estivesse bem, como se não fosse nada importante, como se não percebesses o medo que tenho de ao acordares... não me reconheceres, não me quereres... e pintares o pato para outra qualquer.
como aquela vaca gorda que se pos a rir para ti no café... sou invisivel? não me via sentada ao teu lado? bem feita que eu tava de decote e tu não desviaste dos meus olhos a atenção um segundo - sim, nem eu acredito nisso, continuas a só pensar nisso... és horrivel!

já tenho sono e não consigo escrever como devia, queria e até pensei em o fazer.



se soubesses o texto fantástico que preparei...


dirias-me - por ser em vão é que é belo...

sim, há uma beleza nos gestos que não mudam nada, que para nada servem como esta porcaria que te escrevi, mas foi sincera... acredita que saiu com a ternura de quem te berrou mas está muito arrependida, quem te bateu e se aleijou - partiste-me a mão com a cara...

enfim my love...


da tua

Sra dona Bella Charis




P.S. - sim, isto não ia acabar quando era suposto...
mas já agora, e como eu te amo loucamente e só te quero bem...
atreve-te a pintar o que quer que seja que não seja de mim ou para mim que vais ver onde te enfio a liga dos campeões, o Lisandro Lopéz e o cavalete...

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Oh... Cherrie....

Queria-se despedir dela bem. Não teatralmente falando, frases shakesperianas, compridas e sonantes, musicais e de punho cerrado para o ar, apenas o queria fazer a de algum modo roubar-lhe um sorriso, um gesto qualquer doce ou suave para si, e queria estar atento para reter esse instante com força .
talvez fosse essa a sua ultima oportunidade junto dela.

sorriu sarcástico no pensamento do "talvez", como se houvesse para ambos outra qualquer solução.

pensava e repensava, pensava outra vez para ficar bem mexido e complicado, parava de pensar e divagava novamente no pensamento do que queria dizer.

só mais uma vez...

não sabia se queria mais uma hipótese com ela, se queria ficar sentado na mesa do costume toda a tarde, naquele café de todos os dias, cupccino habitual, a companhia dela como antes.
ocurreu-lhe um pensamento diferente, devia ter bebido mais cerveja, uma sequer... talvez embriagado pela cevada, dormente, anestesia salvadora da cerveja o ajudasse a despachar o assunto sem receios, sem rodeios, sem o medo do último instante se perder.
já tinha subido a porcaria da rua tantas vezes...mais do que ela a tinha descido... ah mulher caprichosa, donzela altiva no cimo da tua torre...
estranhou o prazer que sentia em cada passo, sabia que era a ultima vez que ela era o seu destino, que pé ante pé subia para a ver, e inspirava o gesto até se desfazer doce na boca, descolar perfumado do seu nariz...
era a ultima vez... mas com força!

ao fim de tão tortuoso caminho - caramba, também não era assim tão longe quanto isso, eis que ela surge, como sempre...
ah... ansiada imagem, o cabelo negro sobre os ombros, desta vez o olhar atento às linhas do livro que lia concentrada, pernas cruzadas, apoiadas numa outra cadeira, o rio lento e preguiçoso, talvez da hora, fugia para o mar atrás da sua imagem...
respirou devagar e avançou, sentou-se sem palavras e sem estas ficou.

- estou a acabar o capitulo... espera um pouco...

esperou, aguardou.
manteve-se atento ao ondular da água à sua frente, ao pairar rodopiante, em queda e flutuante das gaivotas no ar.
ouviu o som tão particular e distinto de quando um livro se fecha ao seu lado.
sentiu-a nos seus lábios sem aviso, sentiu-o o corpo dela sentar-se em cima do seu, abrindo-se, puxando-o para si.
sentiu o cheiro dela seguir o sabor na sua boca que o exasperava, a mão dela puxa-lo pelo pescoço para dentro de si, como se disse dependesse a força dos seus beijos, sentia-a sorrir na sua boca, sentia-se a perder todo e qualquer texto que tivesse organizado na viagem até ali...

não a afastou... alimentou o beijo.
sentiu-lhe o corpo com as mãos, sentiu as dela frias sobre a sua roupa contra o seu peito...

- porquê que te atrasas sempre...
- mas eu cheguei antes da hora combinada...
- precisava de ti antes...

levantou-se, puxou-o pela mão atrás de si
esbugalhou os olhos no desenho do contorno do corpo dela, as ancas, o reflexo preto das calças, e ela... sabia que tinha qualquer coisa importante para falar com ela... qualquer coisa importantíssima como as coisas importantes são.
parou diante de si e virou-se.
segurou-lhe o rosto com ambas as mãos, sorria... ah e começava a doer-lhe vê-la sorrir...

-porquê que estás assim tão sério? o que se passa?

perguntou-lhe empurrando para longe o sorriso
queria-lhe dizer, queria falar com ela de muita coisa, queria saber bem o que dizer de um modo poético, de um modo que vincasse nela o que sentia, para que não se esquecesse de si, daqui a uns anos a reencontrasse numa praia - para ser romântico, e lhe reconhecesse a ternura que tanto lhe custava agora magoar, para que quando de si falasse fosse em desejo, fosse na ânsia de o ter de novo, fosse somente uma memória que tivesse cativa com ternura, mas...

deu-lhe um beijo, desarmou-a.
deixou-a confusa, olhava para ela na certeza do que teria que fazer, beijava-a na vontade do que queria que fosse.

abraçou-a e levou-a para longe do rio.

acordou.

sentiu o corpo dela sobre o seu.
sentia o calor dela nua, o respirar lento e tranquilo de quem dorme profundo e em paz.
beijou-lhe por instinto a nuca, cheirou-lhe por reflexo o cabelo, o cheiro quente e hipnotizante que adorava reter em seu redor.

passaram-se horas até que ela acordasse, minutos que sorveu sedento, que reteve na angustia de irem de algum modo ser os últimos...


Desligou a aparelhagem que à muito estava ligada sem que dela música tocasse.
há muito que se mantinha flutuante numa indecisão de ir ou ficar diante da porta.

ás vezes nada mais há a fazer...
e fazer o quê outra vez? ficar quieto? era a alternativa que lhe restava e agarrou-a.
saiu de casa, avançou fechado em si mesmo.


ah... ansiada imagem(receada também), o cabelo negro sobre os ombros, desta vez o olhar atento às linhas do livro que lia concentrada, pernas cruzadas, apoiadas numa outra cadeira, o rio lento e preguiçoso, talvez da hora, fugia para o mar atrás da sua imagem...
respirou devagar e avançou, sentou-se sem palavras e sem estas ficou.
olhou para ela, tão perto de si... ali do seu lado.
sentia-se pressionado por si mesmo, pela vontade de encontrar aquela frase perfeita que lhe roubasse a atenção dela do livro que lia, para a fazer sorrir e de alguma forma... puxa-la para o seu mundo...

sorriu, sorriu no pensamento - deves-te peidar como um coelhinho, é uma frase com piada entre amigos mas talvez uma má opção quando platónicos romances se transformam em respostas reais como um sorriso, um gesto de apego... ou numa ordem de restrição que era o mais provável ante tal subtil - e romântica - abordagem.
era estúpido não querer perder a imagem perfeita que imaginava, o vazio onde podia colocar tudo o que queria, e não deixar que a realidade daquele ser estranho concentrado nas letras e linhas de o bosque dos mítacos... caramba... era demasiado irónico para não lhe dar vómitos.

perdido no vai e vêm dos seus receios, deu por si sozinho ao pé do rio.
tinha-se ido embora.

continuava tudo na mesma... os mesmos espaços em branco, as mesmas incógnitas, o mesmo nome que dela não sabia... e queria tanto o saber...
queria vê-la sorrir, queria ouvir a sua voz para dela ter uma ideia, queria esbracejava as palavras em gestos, se era contida no gesticular, se
queria saborear esse instante que mesmo em vão... era seu.

idiota.

“-percebeste?

- sim, percebi…

- percebeste mesmo?

-sinceramente não, mas já não tenho paciência…

 - eu vou-me embora… queres saber porquê?

- e continuares a falar? Não… eu confio no teu julgamento… e tendo em conta o que eu acho… era como uma bufa durante um furacão

- vai para o inferno… de certeza que já deves ter lá um lugar reservado…

- ena! Óptimo, odeio ficar à espera em filas…

-metes-me nojo… nojo! Diz-me – colocou as mãos nas ancas – tas à espera que eu te faça alguma coisa agora? Tas à espera de alguma coisa?

-  estar à espera não estou… mas podias-me ir buscar uma cerveja que tá quase a começar o Porto…

- vai à merda… tou farta… vai à merda…e achas que ficaram do teu lado porque tinhas razão…

- ficaram do meu lado porque primeiro tenho razão e segundo, nunca se sabe quando podem precisar de um rim… coisa que sempre fui é ser um gajo generoso… e tirando ires buscar a cerveja tu não serves propriamente para muito…

 

ficou calada, boca meio aberta, queixo ligeiramente para o lado.

Aproximou-se. Cerrou o olhar procurando intimidá-lo

- se achas que eu vou engolir as merdas que…

- se não queres engolir… preferes em supositório?

- tu vais ficar sozinho… vais ficar sozinho muito tempo…

- por algum motivo Deus presenteou os homens com polegares oponíveis…"

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Shake that body... for me... shake that body...

Acordou no sobresalto da pancada forte, o vibrar do telémovel agora no chão.
tentou não acordar e desligar o estupor mas o gesto era demasiado longo para não mexer o tronco, sair do transe e acordar para o mundo real.
- tás acordado???
-humf... agora tou...
- tens a certeza? ainda não disseste a tua frase registada...
- frase?... ah, foda-se não se pode dormir na puta desta casa... melhor?
- perfeito, tou no café, despacha-te e tomas o banho depois.

malhou. não foi um tropeçar ligeiro, foi mesmo um mágnifico espalho na tentativa de calçar o téni. Doia-lhe a cabeça, tinha o pescoço com um chupão e o braço inchado. doia-lhe o joelho e descobrio a camisa azul que vestira ontem rasgada em três sitios.

- porra, tanto tempo para vestires essa t-shirt e umas calças??? - abriu os braços à pintas italiano ao ver o amigo, afastou a cadeira ao lado da sua na mesa onde estava com o pé convidando-o a sentar-se - ok...  ontem... Tu... 1º ravioli, 2º morena de 1,75 de olhos verdes e 3ºliguei-te cinco vezes e tu rejeitaste as cinco 4º foste visto a dançar com a morena no mood as 3h30 e  5º a mensagem que me enviaste as 5h30 a dizer e passo a citar sua excelência - está cientificamente provado que os gays leem as mensagens de telémoveis com os polegares... podes começar a contar que já mandei vir a meia de leite po sr.

- doi-me a cabeça... fala baixo por favor...e  com carinho que estou sensível hoje...
- não é problema meu... tou à espera...
- tudo tão vago... tão... imagens... vagas...turvas, o medo... o horror...
- apocalipse now... boa, original, conta porra!
- lembras-te de te falar daquela miuda da turma do 3 ano que encontrei no outro dia?  - aguardou pelo acenar positivo para continuar - tinhamos ficado de nos encontrarmos e... ela atrasou-se, do café ficou para o jantar e levei-a ao ravioli...
- mas tu levas as gajas todas ao ravioli porquê?
- eu já te levei ao ravioli... que eu saiba não és uma gaja apesar essas calças enfim... e nunca tentei saltar-te para cima...
- tirando aquela noite em que eu tava bebado e tu carente...
- essa piada é minha...posso continuar? eu não faço questão de contar a história...
- força...
- continuando - deitou o açucar na meia de leite e reparou que tinha os nós dos dedos esfolados...- fui com ela ao ravioli...
- desculpa interromper outra vez, é a outra miuda com quem te davas da turma de teoricas? a PELAMORDEDEUS! 
- já nem me lembrava dessa alcunha dela... sim, ela...
- eeeeeeh lá! mas pela amor de deus! respeito, muito respeito...continua...
- posso? se não quiseres...
levantou a palma da mão, o olhar para o céu em contemplação inspirada - agora já, foi um momento de pausa para saborear as boas e decotadas recordações que ela...
- fomos ao ravioli, falamos sobre o erasmus dela na rep. checa, ela agora tá cá para ficar, até mora ao pé da faculdade...
-mas eu quero lá saber se ela faz sudoku e gosta de celine dion, avança... tás prai com lamechisses, filme porno não tem enredo...
- não é uma historia porno...
- por enquanto...
suspirou, ia encolher os ombros mas doeu-lhe, reviu mentalmente a noite anterior e esboçou um sorriso, corou e tirou os oculos escuros que o protegiam do sól
- eeeeeh lá! ela bateu-te?meu tás um guaxinin do caraças, eh pa, se perguntarem eu é que dei no focinho porque me faltaste ao respeito num jogo de suéca... sempre é melhor do que... tás com um olho negro pá! levaste no lombo da miuda?
- não como tu pensas... já vais perceber...
- tu é que tás a enrolar... ela bateu-te porque lhe disseste que eras abonado e depois quando chegaste à altura aquilo...
- mas porquê que tás a falar do meu penis!?!! não cites o Megatron assim do nada... e deixa-me contar pá...
- força... apanhas-te de uma chavala... ah pantufinha.... a menina mau bateu no panfutinha...
-adiante... a meio do jantar... eh pa, ela diz que ainda não tinha ido sair desde que voltou à dois meses, não teve tempo porque andou a tratar da casa...
- fonix, tas-me a dar sono...
- fomos sair depois do jantar, fomos po bairro, lembras-te que fomos po Mood no ano em que fomos colegas num jantar de turma? fomos para lá numa de saudosismo... e... pera, fomos antes po café no Monumental, bebi uma cerveja alemanha sopinpa 
- sopinpa?
- Mágnfica, ficamos lá até sermos corridos e fomos po bairro, a meio caminho, tavamos a estacionar, e ela diz-me " eu tinha uma panca por ti... e tu eras muita mau... não me davas trela nenhuma..."
- tu tavas sempre atrás dela...parecias a tua cadela a babar pá  picanha... gajas pá... tu tavas sempre a falar com ela e emprestavas-lhe os lápis...
- ya, gajas...ela diz-me isso e não me dirige palavra do cais do sodré até ao camões! olhava pa mim, sorria, empurrava-me com o ombro, e até me deu a mão quando passamos por um maranhal de pessoal a descer no sentido inverso para não nos afastarmos
- parece que tás a escrever no diário... "ele sorriu para mim... será que gosta de mim? o Bon Jovi é tão giro..."
- tu achas o Bon Jovi giro?
- tu é que querias ir ao concerto...
- queria ir pela música...
- sim, e nós namoramos com gajas pela personalidade e companhia...
- foda-se tu és pior que aquela tipa com quem namorei no verão...tás sempre a interromper...
- tu não contas a história!
- tavamos no mood...
-tavas a ir po mood
- obrigado... se quiseres continuar... optimo, tavamos no mood, ela não me dizia nada desde o cais do sodré, assim que entramos, ela puxa-me po meio do pessoal e começa a dançar... para mim... comigo mas para mim... a olhar-me de baixo para cima... eh pa, sorria, encostava-se a mim... até que há uma altura que ela poe os braços à volta do meu pescoço... rodeou-me o pescoço sem parar de dançar... morde o lábio... meu...aproxima-se de mim, do meu ouvido... não faças essa cara de javardo quando tou a contar a história pá, desconcentra-me... ela aproxima-se de mim... diz-me " não dizes nada? ficaste chocado por te dizer que gostava de ti?",afasta-se, poe as mãos nas ancas e para de dançar à espera que eu responda... só me apetecia dizer-lhe - leva-me para casa e dá-me banhinho....aproximei-me dela, ela não se mexe, eu levo o meu nariz ao pescoço dela... eh pa, snifei-a como se não houvesse amanhã, aproximo-me do ouvido e digo
-DÁ-ME A TUA COOOOOOOOOON....
- eh pá...
- sorry, empolguei-me...
- digo-lhe - ficas chateada se te disser que era mutuo?
- e ela?
- da-me o melhor beijo da minha vida...
- VICTOOOOOOORY!!!! eh lá, a facturar... lisandro lopez...
- ela... meu, agarra-se a mim, aquilo era... eh pá, como se ainda agora tivesse o sabor dela na boca...
- fonix, ela sabe a meia de leite e pastel de nata? estragaste tudo...
- pokeralho... 
- continua... 
- ficamos não sei quanto tempo a fazer a Hidra de duas cabeças e um só corpo no meio da pista, colados, eu afalfei-a toda mas menos do que ela a mim... foi simplesmente ninja...
- ok, Mood tá contado mas não explica as escoriações e o olho à pirata...
- saimos do mood e ela diz-me - "quero-te levar a um sitio meu... especial..."
- " á porta do desejo em teu ventre" como diria o grande Toy... tu tiveste no woochie woochie com ela! 
- o quê que eu ja te disse sobre woochie woochie? qual foi a unica coisa que eu te disse sobre sexo?
- ah... que não gostas de surpresas...ou porque  alguém se aleija ou alguém se assusta...
- ...que não comento se sim ou não e a resposta é não...
- demoramos quase meia hora do mood ao cais do sodré, eu não dava dois passos sem que ela me saltasse para cima... entramos no carro, ligo o rádio e trufas... shake that body...
- dos technotronic? shake that body for me...  shake that body for me...??? 
- nem mais, tavamos na onda, ela diz-me - "café in faxavor", cada semáforo... meu deus, eu quase que pedia para me baterem com paus para ter a certeza que táva ali e era mesmo...
- não comeces com descrições abixanadas, paraste o carro e mostras-te-lhe porquê que te chamam " o devasta"
- parei o carro e ela sai, saio atrás dela, ela abraça-me , da-me um beijo ligeiro e sorri, diz-me a meio de um beijo "acreditas que eu passei meses a fantasiar que te dava um beijo... aqui!" - perguntei-lhe... porquê aqui, ela diz-me que era romântico, a ponte, o rio, a noite, a minha pessoa...
- acho que vou vomitar...que nojo de história... coisa mais à gaja... e tu?
- eu sorri... disse-lhe que também tinha pensado como seria dar-lhe um beijo...
- e ?
- ela pergunta-me como é que eu tinha imaginado... eu aproximo-me dela, devagar, muito devagar, encosto o meu nariz no dela... e dei-lhe um beijinho à esquimó....
- e como é que isso explica a sessão de sapateado da tua cara?
- fiz-lhe comichão no nariz e ela começa a rir-se, espirra e vai a cair para trás, para o rio, acerta-me com a mão no olho, eu seguro-a pela mão e ela estica a perna no gesto de cair para trás, da-me uma pantufada no meio das pernas, eu puxo-a para mim e ela cai sobre mim, eu cai de joelhos, ela tropeça e empurra-me e acabei a noite dentro de àgua...

terça-feira, 5 de agosto de 2008

...Qualquer coisa....



"... pudesse eu mudar o imutável, tornar o tempo interminável e viver para sempre...
acharia aceitável, tornar-me por ti frágil, humano... só para ter o teu amor..."