sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Um livro exasperante.

Ela sentou-se desinteressada na mesa da esplanada.
Ele ao vê-la chegar ficou desconcentrado, o livro à sua frente subitamente tornou-se uma amálgama de gatafunhos sem interesse. Esfregou a testa procurando concentração que não encontrou.
Olhou para ela novamente.
Ela recordou à farripa de cabelo que lhe fugia que o seu lugar era atrás da orelha, coçou o nariz com a palma da mão.
Ele sacudiu a cabeça, abriu e fechou os olhos e dela concentrou-se num puto de trotinete que se ia espetando três vezes de seguida.
Criatura valente que continuou o seu caminho até se espalhar de vez, levantou-se e continuou derrotado a passo com a trotinete pela mão.
Regressou com a atenção à esplanada e encontrou-a a sorrir.
Ela corou, apanhada em sorriso puro de malícia no infortúnio da criança, talvez por ter descoberto em surpresa um cúmplice que, como ela, torcia pelo azar da criancinha, talvez.
Voltaram no dia seguinte, ela chegou primeiro, ele chegou com o mesmo livro.
Sentou-se na mesma mesa, ele sentou-se na mesa que havia vaga, encontrando-lhe agora o recorte do corpo e rosto em perfil.
Agradeceu mentalmente a boa fortuna dos deuses, deliciado com o desenho da ponta do nariz dela, dos ombros, do peito, da extensão das pernas e do baloiçar dos sapato na ponta do pé.
No dia seguinte atrasou-se, já só a viu a pagar ao balcão, cruzaram-se na porta.
Ela sorriu, ele ficou atrapalhado e acabou a comer um queque infeliz na esplanada.
Três dias depois reencontraram-se, ele percebeu-lhe um sorriso e um arranjar de cabelo quando se sentou, ela achou-lhe graça e totalmente delicioso o gesticular das mãos que ele fazia quando se irritava com o livro.
Num dia em que se levantaram ao mesmo tempo, deixou-a passar primeiro na porta.
Ela agradeceu-lhe a cortesia e atirou-lhe bom dia quando se virou para partir.
Sorriu-lhe e acenou quando o viu sentar outra vez, num dia com menos sol.
Respondeu-lhe ao sorriso sorrindo e atirou-se ao livro que usava como camuflagem para a espreitar, sentada à sua frente de cabelo solto que lhe fugia para o rosto ao sabor do vento.
O tempo mudava, ele irritava-se novamente com o livro, o que a fazia rir.
- Se te irrita, porquê que teimas?
Perguntou-lhe da mesa.
- Estou a odiar tanto o livro que agora não quero aceitar que ele me derrote. Recuso-me!.
Inclinou a cabeça, contou-lhe as páginas do livro e disse-lhe que já faltava pouco.
Suspirou-lhe a resposta, disse-lhe que faltava demasiado.
Choveu.
Ele sentou-se dentro do café e presumiu que não a ia ver.
Ela chegou de casaco comprido e fechado, disse-lhe bom dia e que a camisa azul dele tinha uma cor horrorosa, tirou o casaco e riram-se.
Ela estava de azul também.
Colocou o marcador no livro, fechou, esganou o livro e voltou a abrir na mesma página, recompondo-se.
- Já passou, estás quase!
- Faltam cinco capítulos, eu não vou conseguir... cortaste o cabelo?
- Cortei... estava descontrolado!
Despediu-se, e deixou-o com o livro no café.
Acenou-lhe da rua e abriu o chapéu de chuva.
Ele chegou ao café a correr, esquecera-se do chapéu e parecia que a chuva lhe tinha rancor e ressentimentos, perseguindo-o rua fora como se lhe devesse dinheiro.
Sentou-se, olhou à sua volta e não a viu.
Demorou-se mais do que o normal, na ideia de a ver chegar.
Resignado levantou-se para pagar ao balcão.
- A sua amiga já pagou, ela hoje veio mais cedo, você pede sempre o mesmo.
Ele sentou-se e cruzou os braços, ela sorriu.
- O teu livro?
- Ficou em casa.
- Oh pena, não houve um dia em que pelo menos uma vez eu não te visse a revirar os olhos.
- Obviamente que hoje não pagas.
- Porquê? aconteceu alguma coisa?
Comeu calmamente, piscou-lhe o olho e sorriu de tempos a tempos.
- Vamos?
- Claro.
Levantaram-se, pagou, deixou-a sair primeiro e abrir o chapéu de chuva..
- Queres boleia para algum lado?
- Quero saber o teu nome.
- Ou boleia ou o meu nome, escolhe.
- O nome, obviamente.
Disse-lhe o nome, avançou para a chuva debaixo do chapéu, parou dois passos depois e virou-se para ele, abrigado à entrada do café.
- Como é que vai ser agora? Estás à espera de acabar o livro ou já te sentas na minha mesa amanhã?


2 comentários:

Anônimo disse...

gostei :)

Hathor disse...

e foi o um bonito inicio :)