domingo, 28 de dezembro de 2008

Felizmente

abraçou-o e sentou-se.
- o que se passa?
-gastei dinheiro em roupa... fico sempre deprimido...
- tás parvo? ontem gastei 100 euros e caramba, aproveitei que tava tudo em promoção, todo somado ficava-me em 500, mas como estava em promoção...
- mas precisavas?
- aproveitei o preço...
- eu precisava das camisolas, gastei uns 50 euros... mas não percebo como gastar assim dinheiro te dá alegria...
- não és gaja não percebes...

(felizmente)


abraçou-a e sentou-se
- então porquê essa cara ?
- tou deprimida... tou 300gramas mais gorda que o mês passado...
- eu tou 3 kg mais pesado... mas como não engordei... é o ginásio a fazer efeito... até fui de seguida comer um ravioli XL para comemorar...
- odeio-te.

sábado, 29 de novembro de 2008

...Only waiting...


É tarde.
nas horas, nas coisas que era suposto querer fazer.
é tarde no que não quero fazer mas arrependo de pensar no assunto.
a meio caminho de um gesto falso somente para aplacar a presente emoção(solidão) ausência de açúcar no sangue...

dou meia volta daquele sitio frio onde me lembrei de ti.
esboço um melancólico sorriso daquele nosso café que se transformou num banco...
avanço e revejo o que não desejo fazer de ti... memória do teu cabelo ajeitado sobre a orelha, do jeito patusco com que coçavas a ponta do nariz com o indicador, nada disso.

tenho saudades de mim antes, mesmo contigo.

queria amar-te, e tu ser amada.
queria-te como namorada e tu um namorado

calma que não vou desabafar tudo de uma vez...
mas aproveito e confesso que os meus dedos exasperam pelo toque da fronteira das tuas calças nas tuas ancas...

não necessariamente as tuas... é apenas uma ideia( conceito, gesto) interessante.

era sempre tão cedo aquele teu beijo de despedida, apressado.
não trás alivio essas coisas... as recordações.



para além de rasgarem o presente, o empurrarem... ou pior... segurando-o pela mão abrirem deste os seus dedos

em silêncio.

este passado é silêncio.

o calor do teu rosto nos meus lábios - não da tua boca

o teu polegar na palma da minha mão

qualquer coisa boa das poucas que me deixaste de memória antes de te calares mulher

(podias ter ao menos deixado mais qualquer coisa de interessante, de válido e cativante de se lembrar)

antes de não me conseguires olhar nos olhos e mirrada, envergonhada, traíres as tuas palavras comigo
sentadas ao meu lado no passeio



passou-se Fevereiro, Abril, até mesmo se passou o mês de Agosto, caraças... estamos em Novembro e dei por mim na mesma rua mas tudo cambiou.
há entre vós... ambas as duas e aqui o bonitão uma invisível barreira...

Mais do que desgosto ( que há muito não há)
mais do que desejo ( oh... pelamordedeus)
mais do que a vontade de dizer o que ficou por ser dito ( que já perdi também com o tempo)

há um vazio que devia ser diferente.
devia ser bom mas...
rebentaram com a memória que até seria digna de se ter de alguém de se encostou no meu ombro e deixei chegar bem perto




mas agora para vosso azar, para a memória que não tenho vossa, é o amanha que me guia, é o passo seguinte que me arrebata e leva a mexer, a sorrir e a viver
já não me dou por satisfeito, desfeito em imagens arrepiantes de quando me salpicavam, me encharcavam, me beijavam - por vezes bem, outras nem tanto
e não há mais nada para ver agora...
foi devagar mas ganhou velocidade, balanço... e já só paro no barreiro
ficou um nada senão desgosto
de não ter visto o jogo do Porto em casa em vez de teres caprichado a minha companhia
de não ter tido aquele encontro galante com a moça dos caracóis e ter desejado ser convosco ficar, mais do que aqueles cinco minutos que demorei a compreender que não eram parte do meu caminho


ajeito o casaco, encolhendo-me do vento frio.
respiro fundo e avanço, devagar mas confiante
ainda é cedo.

(pelo menos para mim)



Nota - pela primeira vez sobre uma ex namorada (neste caso duas) falei a sério, respeitosamente e com carinho (tentei!), misturei um pouco de ambas no mesmo texto para ter também alguma coisa para delas dizer, pois era meu desejo assinalar o facto de em entre-campos, onde era o lisbonne café... agora ser um banco...

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Standing Still

Inacção.

noção sempre sempre em relação a algo que se move
todos parados, imóveis...é algo que todos fazemos juntos, se um se mover... todos os outros estão quietos de imediato e quem se moveu dono de uma qualquer acção.


dai a expressão - estava a fazer a fotossíntese...

desculpa para não me mover.

não ter que o fazer, não ter que dar aquele passo, e aturar, chatear, apanhar, irritar qualquer coisa em mim ou em meu redor.

é bom saltar de pés para a água e deixarmos esta nos embalar
abrir os olhos e sentirmos qualquer coisa fisica ao nosso redor que não nada... sentirmos algo frio ou quente, sentirmos que estamos ali, sem nos movermos e é o que nos rodeia que nos move...
e nos leva a fazer qualquer coisa.

não fazermos algo e recearmos o seu regresso, como espirrar deitados na cama de barriga para cima e lembrar-mo-nos disso nos milésimos seguintes ao espirro

(por demais nojento, mas sempre engraçado)

inversamente, posso ter um quadro parado... um fundo a negro, uma ligeira ideia sobre esse fundo e deixa-lo assim os anos e tempo que me aprouver...
estou a acabar de o pintar... estou a fazer algo na inacção.

(sim... estou a ser preguiçoso)

até ao dia que acordo e ainda é noite, mas um cinza azulado ténue de manhã, não o noite denso e alinhavado de dourado da noite

(horrível encontrar um dia perdido ao acordar de noite...)

acordar nesse azul acinzentado em crescendo para tudo ser luz em meu redor, e sair de casa tão cedo que tudo à volta é espaço, vazio de homens, cães, coisas a se moverem...

é apenas eu, eu a mover-me contra o mundo...

mesmo a saber que no fim talvez sinta que não vai valer a pena, podia ter ficado na cama mais uns cinco minuto
ser um gajo que se move, faz coisas, diz coisas, irrita coisas, e coisas faz errado.

dar aquela corrida enregelado e sente o corpo sorrir, mais uns metros... mais um minuto, talvez só até aquela árvore... e depois dela aquele poste e depois outra coisa qualquer, e outra, tudo sem parar de correr, sempre sem parar - é importante nunca parar, não vá o corpo achar excelente a ideia- e correr até não haver mais chão para onde o fazer, e ser o mundo que se verga derrotado

é o mundo que ficou quieto, porque por mim...

eu sei que a terra é redonda...

mas por maiores que sejam os continentes podemos sempre parar (ou voltar para trás) quando chegarmos ao oceano

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Actualização aos "fãs"

Patrióticamente chamei actualização em vez de "upgrade" ou Piada do Bad Boy 3000

(aparte cultural, 2001 odisseia no espaço foi assim nomeado pois até 2001 ainda faltava imeeeeenso tempo, parecia natural que o ser humano viajasse pelo cosmos como quem vai ver as vistas no barreiro - só poderemos dizer que triunfamos enquanto espécie no dia em que todos nós homens machos tivermos a nossa Cherry 2000 e não precisarmos de fémeas neuróticas para literamente nada)

vamos ao que nos trás aqui hoje - ou amanhã, consoante o dia em que lerem isto...

bem... no fundo isto é uma viagem no tempo, o meu eu PRESENTE, está a desperdiçar o vosso tempo leitor... no FUTURO
logo, é uma viagem temporal, como um feitiço que demora a fazer efeito

adiante

depois de esclarecer que cherry 2000 é um filme de ficção cientifica onde as mulheres foram substituidas por robots...

continuam a haver femeas para reproduzir a especie mas... ninguém se casa com as originais ou as atura...

ADIANTE


- piada do bad boy -


ela - sabes... não sei porquê... mas... é como se tivesse alguma coisa que me fizesse gostar dos maus rapazes... dos bad boys....

ele- optimo... sabes... dei um soco num bebé...

(silêncio)

(entra a actualizaçao)

ela - estás a falar a sério?....

ele - não... achas mesmo que ia dar um soco num bebé? são tão queridos... foi numa foca bebé...



sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Os Três desejos...

Espirrou, respirou e espirrou novamente.
porcaria de pó.
se ainda fosse do bom... mas não, era somente pó.
camadas e anos de pó a mais... esquecimento num sótão velho.

teoricamente ser-lhe-ia fácil encontrar a porcaria do cavalete, afinal, tinha sido despejado na empoeirada tumba de velharias poucas semanas antes.

não era o seu dia de sorte.

afastou caixotes e livros, enciclopédias de quando os planetas eram nove e duas as Alemanhas.
Discos, o belo analógico negro, plástico barulhento, e o boné vermelho preso à cintura do Bruce Springsteen ...

Clássico...

Quatro livros do Verne, Demasiados da Agatha Christie com o Mítico Morcego - demasiados pois o fundo do caixote cedeu-lhe o conteúdo sobre os pés.

mexeu e remexeu.

procurou exaustiva e preguiçosamente depois.
caramba, um cavalete não é propriamente um objecto de bolso...
(porque era gajo, se fosse fêmea de certeza que o conseguia enfiar na mala entre mil outras não necessárias coisas)

caixote estranho.

não era dos seus, era mais antigo.
via-se pelo aspecto do cartão e pó.

desembainhou o canivete Suíço, avançou carrasco determinado, e num golpe firme e mortal, rompeu o papel numa nuvem vingativa de pó que o levou novamente ao festival de espirros em cadupa.

tesouro de Montecristo... não melhor, menos ouro mas melhor... muito melhor.

De capa cosida à mão, as mil e uma noites, edição de 1923, atlas histórico de 1893, uma lamparina, um sapo em madeira - para o que quer que isso fosse, selos, muitos selos descolando-se nas folhas de um livro... as fotos... as fantásticas fotos acastanhadas com o ondulado branco na moldura, as roupas negras... mangas em balão!
outro livro - tom sawyer...
cartas... manuscritos começados por "caro senhor", em respeito não os leu de imediato, talvez numa outra solene ocasião.

Uma bussola, de metal curruido onde o norte parece ser o antigo e não o presente, sendo obviamente o mesmo...

no fim, aguardando a sua atenção, uma pequena caixa de madeira escura.

retirou-a e sentou-se no chão.

abriu-a e deparou-se com um elegante abre-cartas na forma de uma cimitarra moura.
lâmina prateada, punho em ouro.
no verso do tampo da caixa lêu para sua estranhesa as palavras escritas - nunca limpar

havia pó, uma fina camada deste sobre a lâmina, esticou o indicador e deslizou o dedo sobre o metal até este reflectir o seu rosto.

- mas és parvo ou não sabes ler?

saltou do chão, susto dos sustos... o mega-susto

um grande cagaço enfim

olhou em redor sem encontrar ou compreender de onde vinha a voz

- repito, és parvo ou não sabes ler???

manteve o olhar fixo no fundo oposto do sótão de onde se encontrava, recusando-se a olhar para a voz que lhe falava do abre-cartas que tinha na mão

- podes olhar que não te mordo... e era uma pergunta retórica...

esbugalhou os olhos, e deixou o abre-cartas cair no chão.

não resaltou, esmagou-se quieto como se tivesse o peso de mil quilos e não as suaves gramas que sentira na mão.

- isto é da coca cola... ando a beber demasiada coca cola... e café... só pode...

- não meu caro... da-me um segundo...

para além de se ter dirigido oralmente a um abre-cartas, este não só respondia, como ficou por instantes à espera que algo sucedesse como se fosse a mais natural acção de se fazer quando na presença de pequenas cimitarras mouras para abrir envelopes.

- atrás de ti

voltou-se. não em camara lenta como nos fantástico filmes de terror em que descem sozinhos para a cave onde sabem que está o assassino do pantano à procura do Tommy... e depois de perceberem que a luz não acende... entram na cave à mesma...(e também não fogem quando vêem o sangue, teem que ir mexer no cadaver e porem-se de costas para a porta...)

enfim... e adiante

rodou o corpo devagar.
não sentia medo, mas sim aparvalhação com tal instante... estaria a dormir? sonhava?


granda sonho!


-olá! como estás para além de confuso e com cara de parvo?...

estava com uma ligeira taquicardia o que era de esperar, estava pasmo também, mas sem receio.
olhava para a figura diante de si.
primeiro cerrando os olhos, focando-a para confirmar que era real, depois na certeza da sua presença...
confuso...

-aaah...

-bbbbb...cccc....

franziu o sobrolho, de perdido na situação encontrou-se tenso e sério...
e desancou-se a rir.

- bem... ler não sabes... mas ao menos tens sentido de humor... senta-te

sentiu as pernas dobrarem sem ter voto na matéria, sentiu o seu rabo encostar-se num cadeira que de certeza não estava ali segundos antes...
aproximou-se... devagar e sempre a sorrir. sentiu o ímpeto de chegar para trás o corpo mas este não lhe respondia, viu-a dobrar-se ligeiramente na sua direcção, como se lhe fosse dar um carinhoso beijo na testa... sentiu a mão dela sobre o seu rosto... suave... até esta lhe presentear um forte estalo de mão bem aberta

- como sentes, não é um sonho... estou aqui...

sentou-se numa cadeira que também não estava ali...
doía-lhe o rosto, ardia... chiça...

- chamo-me... bem... tens alguma sugestão?

- parva...

- ah ah... piadas conto eu...não me obrigues a reafirmar o quanto estou realmente aqui... mas estou a ser simpática... é que o meu nome é um bocado para o estranho...

- ah... o nome... pois, era o nome que ia ser estranho...

- como quiseres, chamo-me Sirahc... podes-me chamar Sira...vamos ser amigos eu e tu...

- é opcional ou...

- não é opcional... lamento... mas depois de me conheceres e enquanto aquilo que estou aqui a fazer não estiver feito... vou ser tudo o que tens... podes não gostar dos jogadores, mas se é a tua equipa que está em campo... torce por ela!

não sabia o que lhe responder.
quer pelo surreal da situação, quer pela dificuldade em convencer a sua mente que os seus olhos não lhe mentiam... quer por a achar deslumbrante...

- eu consigo saber o que tas a pensar... nada de javardices já agora... mas obrigado pelo elogio

- como? que elogio?

- achas-me muita coisa de interessante num modo que me agrada que aches... isso enquanto observação da minha imagem... mas olha que não sou apenas uma cara bonita... também tenho sentimentos... mas... vamos às apresentações...
sou tipo... um génio da lâmpada mas em interessante, tenho poderes e tal... mas não o cliché de - tens três desejos...
estou aqui porque é o momento de estar na tua vida, nem amanha, nem ontem, hoje é o instante de eu surgir para ti... e mudar a tua vida, dar-te oportunidade de voltares a três instantes da tua vida e mudares algo neles... mas só podes ficar com um deles... esqueces tudo e recomeças a partir desse instante com a alteração que escolheste... e as consequências dela obvio.

- não percebi...

-ninguém percebe... eu explico outra vez... eu sou energia real, de ti, em ti e em tudo em teu redor...faço parte de ti e posso fazer parte de tudo se eu o quiser. Estou aqui porque o menino não sabe ler e limpou a lâmina... e como tal... estou aqui para cumprir o meu papel de levar-te a três instantes do teu passado emocional, e nestes, dar-te a oportunidade de os mudares, mas só podes ficar com um deles...
simples.

sorriu. afastou o cabelo loiro do rosto e encostou-se majestosa na cadeira que de madeira cresceu até se transformar num vermelho aveludado cadeirão.
o vestido simples e branco subiu pelas pernas até pouco abaixo dos joelhos, agora negro sobre collans de renda, sapatos pretos, casaco negro e ... pronta para entrar em cena num filme de gansters dos anos vinte

- gosto da pena no cabelo... mas... porquê eu? o abre-cartas...

- olha... sei que tas formatado para o génio dos sapatitos com a ponta em caracol... mas primeiro eu tenho bom gosto... e depois... uma história falsa ás vezes tem nuances da verdadeira... quanto a escolher-te a ti... bem... és tu porque só podes ser tu. e agora. aceita, não questiones. olha para isto como algo que sabes que sentes sem saber porquê mas que faz todo o sentido quando o sentes...

- e os desejos?

- momentos... se parasses de te babar comigo... e reparasses no que eu digo...

- eu não me estou a babar contigo... és engraçada e tal... mas... digamos que estalo na cara... eh pa, espera lá... isto está a ser demasiado alucinado para ser real... giro... estou a sonhar e tenho noção que estou a sonhar...

levantou-se, colocou-se de pé e ajeitou a saia para baixo abanando-se. não estavam lá mas passaram a estar, mangas em luva, pretas.
segurou na ponta da luva da mão direita do dedo indicador e puxou-a ligeiramente, repetiu o gesto em todas as pontas de todos os dedos.
avançou um passo e inclinou-se novamente

- olha bem para esta cara que é a minha cara de ofendida

e afiambrou-lhe outro estalo com a mão despida na cara

- vais voltar a questionar que estou aqui?

acenou negativamente

- lindo menino... mas vamos ao que interessa... presumo que queiras despachar o assunto não? eu não tenho propriamente pressa... mas talvez seja do interesse do teu queixo resolvermos isto rápido não vás lembrar-te de me questionar outra vez...

- eu ainda não percebi nada... já me explicaste... eu sei... mas quem és... ou o que és tu?

- Sira...

- isso já disseste, mas o que és? como surgiste... etc...

- não sei...

sentou-se, cruzou as calças de ganga com boca de sino que lhe cobriam as pernas, ajeitou a boina de cabedal castanho a condizer com o casaco

- sinceramente não sei, sei que estou aqui e o que estou aqui a fazer... e aceito-o, como seria bom para ti se o fizesses também...

-mas... isto é o quê afinal? actividade de fim de semana?

- hoje é terça... o Porto joga amanha para a liga dos campeões... como se tu não soubesses....

- olha Sira...

- uhh disseste o meu nome... sexy... continua...

- eh pá... Si... tu... eu estou no Sótão... e ... põe-te no meu lugar...

- queres mudar de cadeira? elas são iguais...

(estavam ambos enterrados em puff's pretos...)

- eu ponho-me no teu lugar, sei que é confuso, dai ter-te dito para despachar-mos o assunto o mais depressa possível para rapidamente perceberes como isto funciona...

- mas se vou para um momento...

- emocional , esta parte é importante... é um momento emocional do teu passado

- se vou para um momento emocional, e o posso mudar, ele não vai afectar os outros momentos seguintes?

- não, porque vamos do mais recente para o mais antigo, como tal, tudo o que fizeste até esse momento se mantém, e assim podes escolher facilmente qual dos três...

- porquê três?

- porque somente te apaixonaste três vezes... a sério... a afilhada da tua mãe não conta... que tu querias era convívio e as massagens um ao outro... enfim... adiante...

- tu não respeitas nada... não posso ter privacidade? não posso pensar nalguma coisa

- como daquela vez que beijaste um gajo?

- o quê????????

fechou os olhos surpreendido com a luz forte de um flash.
viu-a recolher da máquina a fotografia da sua imagem irada de indignação

- lindo! a tua cara... ah ah... eu sei que nunca beijas-te um gajo pá! alias... tens é que controlar a tua taradice por gajas... e respeita-me... que eu sou uma senhora!, mas a tua cara... deixa secar a foto que já vês... muito bom...
vamos ao primeiro instante?

- como sei que instante escolher? como sei de quem escolher o instante?

- pergunta mais parva... tu sabes bem de quem gostaste... mesmo que te tentes enganar às vezes, mesmo que o negues... ou procures colocar alguém do presente por cima... tu sabes bem o quanto se cravou dentro de ti, sabes que é algo que faz parte de ti e tem força...

- e tu sabes qual é?

- eu sei tudo. PONTO.

- as mulheres sabem tudo sobre tudo... Rudyard Kipling

voou pelo sótão vitima de um gancho de esquerda sem aviso
aterrou desamparado na colecção da Agatha Christie que afinal não eram livros a mais pois foram a almofada da sua queda
deixou-se ficar quieto, primeiro porque lhe doia o corpo, segundo porque quem sabe se se fingisse de morto ela se fosse embora, e terceiro... era arrebatadora a imagem dela, avançando na sua direcção lentamente, recheio de um sensual vestido vermelho

- acho que já não voltas a dizer a dizer idiotices como essas pois não?

sentiu que não se conseguia mexer, mesmo que o quisesse...
viu-a subir ligeiramente o vestido com as mãos, colocou uma perna de cada lado do seu corpo, e sentiu-a sobre si.
quente e tensa, como alguém real... era real, era tão real como ele mesmo, estava realmente ali...
linda, bela, deslumbrante...
o cabelo louro solto sobre o seu rosto...
sentiu as suas mãos fora da sua vontade moverem-se para a cintura dela, rodeando-a.
sentiu-a subir com as mãos dela pelo seu peito até ao seu pescoço.

viu-a sem conseguir controlar o seu corpo a aproximar-se do seu rosto

- não tenhas medo que não magoo...

sentiu-lhe os lábios nos seus, devagar.
sentiu-o a língua dela devagar invadi-lo, até a sua a deter

e subitamente nada.

abriu os olhos e o sol desfocou-lhe o espaço, contornos vagos em seu redor, como se estivesse num quadro impressionista de óculos com a graduação errada
ouvia vozes em seu redor, distantes mas familiares
abanou a cabeça e tudo nítido se tornou

diante de si o verde, o rio, as vacas preguiçosas... pelas quais se deixara ficar para trás para fotografar
no carreiro não muito distante viu-a desaparecer após a curva como antes...
não era como antes, era o antes, era o mesmo momento, o mesmo ser, o mesmo corpo o mesmo dia o mesmo instante...

mas desta vez... era ele que era diferente.

podia ter as mesmas jeans, os mesmo ténis, estar na mesma bicicleta como antes, podia ter os mesmo patos que desta vez não ia "acidentalmente" atingir com uma sandes de fiambre por uma aposta de cinco euros... não, desta vez ia aproveitar ao máximo o instante, ia directamente para o jardim...

pedalou como louco, como se não houvessem curvas ou distância que o fatigasse.
pedalou até não puder mais pedalar
largou a bicicleta no chão e correu.
saltou sobre a cerca do jardim e avançou até ao sitio onde capturara a imagem dela nesse instante -desta vez um pouco mais cedo para fazer render o tempo

como antes, observou-lhe o cabelo em caracóis solto sobre os ombros, as calças cinza e a ginga de miúda no baloiço.
os pés para o ar...
estremeceu na imagem.
sabia que estava tão perto o instante...

a qualquer momento...

viu-a abrir os olhos e sorrir, viu-a avançar para si... não era memória ou saudoso pensamento, era real e presente... vivia o momento.

sentiu-a segurar nas suas mãos, cheirou-a na proximidade, afastou-lhe os caracóis do rosto para lhe fitar os olhos que descobrira adorar quando esta trucidava um super-maxi na praia do vimeiro sem educação ou maneiras mas com muita gula e vontade...

empenho acima de tudo

sentiu a mão dela na sua orelha, polegar com o indicador.
para trás e para a frente como era sua obsessão fazer

caramba, ao tempo que não sentia aqueles dedos, aquele gesto...
se antes ás vezes irritante, agora ...
delicioso.

desceu-lhe com as mãos até as ancas
adorava-lhe a curva das ancas
estar lá com as mãos como quem se esponja no sofá a ver documentários ao fim de semana
estar por estar e ser ali
o toque da sua pele na dela na fronteira das calças

sentiu o momento e repetiu-o
repetiu-o como antes
todos os seus gestos iguais e mecânicos...

já não era tempo de saborear mas repetir, rápido e partir... ir embora depressa.

estava a doer.

afinal... recordar é uma coisa, sentir e estar no momento com a consciência do que se vai perder... é simplesmente...

cruel.


viu-a sorrir e continuar caminho. viu-se partir de onde estava acompanhando-a como se fosse um reflexo dele mesmo, um outro igual corpo

o momento chegara ao fim.

- hey...

voltou-se e estava novamente no sótão
fugiram-lhe os pés do chão e caiu confortável num sofá, ao seu lado, viu-a de óculos na ponta do nariz, cabelo apanhado preso com um lápis e bloco de notas nas mãos

- diz-me... o que te fez sentir...

sentiu que se podia mexer e sentou-se.
percorreu o cabelo com os dedos, suspirou.

-foda-se...

- eu compreendo... desculpa a piada psiquiátrica... fala.

- e digo o quê? queres que te diga o quê? - estava a levantar a voz em irritação

- quero que me digas porquê que não mudaste nada... não percebi.

- e tens que ser tu a ter as respostas? eu posso ser a tua marioneta e sofrer com este teu jogo nojento... e és tu que tens que ter as respostas?

- podias ter feito o que quisesses e optaste por não mudar nada... não compreendo

- e eu tenho que compreender porquê que tenho que reviver aquilo? porquê que me sujeitas a estar ali... eh pá, tu sabes... tens que saber já que sabes tudo... tu sabes o quanto é difícil sentir que aquela pessoa, aquela gaja ali comigo não é a pessoa que existe hoje no corpo dela...

- ou então sempre foi o que é e tu é que a vias de...

- eu sei isso! e se isso for verdade aquele momento é nada.

- preferes ter um momento bom e agora ser mau a teres um momento falso e agora ser menos mau?

levantou-se do sofá. olhou-a nos olhos e sentiu que a pergunta era curiosidade genuína

- tu sabes os meus pensamentos mas não sabes o que eu penso... ou sinto.

viu-a desviar de si os olhos para o chão.
era a primeira vez que descobria algo sobre ela... por si, sem ser informação orientada.

- tu consegues ver as imagens na minha mente, e sabes a informação factual, sabes que pintei o quadro de preto, mas não sabes porquê...

- sim, há coisas que não consigo descobrir...

circulou pelo sótão em silêncio. de tempos a tempos voltava-se para ela e fazia tenção de dizer algo sem que acabasse por dizer qualquer palavra.

fartou-se de o ver assim. levantou-se, atirou o cabelo para trás dos ombros e este entrançou-se no ar, desceu com as mãos pelo peito e abriu os braços para os lados revelando-se num vestido longo, mangas compridas e em forma de jarro.

ficou quieto, vendo-a mudar de vestimenta no tempo de um pensamento.
parou diante de si
sentiu a mão dela na sua cara
abraçou-o.

abraçou-o enroscando-se até obter retorno no gesto.

sentiu-a roçar o rosto no seu pescoço, devagar...
sentiu o pescoço húmido de um beijo, rápido e de fugida.
sentiu-a subir o movimento e outro beijo, agora mais devagar e demorado, sentiu-se com vontade de se encontrar a meio caminho
deslizou até a sentir respirar sobre a sua boca e beijou-a sem pedir licença, puxou-a para si pela cintura e beijou-a com ganas e determinação.
sentiu-lhe as mãos dela deslizarem para a sua cintura...
dai para o seu rabo.
sentiu-se apertado
sentiu-lhe a mão livre no peito
sentiu-se a voar pelo ar num empurrão

e tudo era água em seu redor.

respirou atrapalhado ao encontro da superfície.
voltou-se e viu uma onda a cair sobre si sem tempo de mergulhar novamente.
rebolou, ergueu-se e respirou e voltou por sua vontade agora a mergulhar...
aguardou a passagem de outra onda e emergiu...
agora estava ao ritmo do mar, estava em controle...
sentiu uma mão puxa-lo pelos calções...
sentiu o corpo dela contra o seu...

deu-lhe a mão como sabia que era para fazer.
puxou-o atrás de si até o mar ser apenas figurante e tímido - pela altura dos tornozelos; sentou-se e puxou-o atrás de si.
aguardou que estivesse sentado para se apropriar do colo deste, de frente para si.
mordeu o lábio, juntou o ventre ao corpo dele desafiante... procurando estimular e excitar
pressionou e moveu-se suavemente até ser forte o resultado da sua intenção.
levantou-se e correr para onde o mar era mais fundo.

sabia qual era o seu papel na peça...

suspirou e seguiu-a

ela sorria, sacana... tinha um sorriso tão sacana...
irresistivel...

sentiu a água pela cintura e o momento ser presente no instante que as suas pernas o rodearam e a mão dela lhe entrou pelos calções
cobertos pelo mar, o corpo dela contra o seu, devagar primeiro, quente...
deixou que ela o beijasse.
não somente por beijar bem e até ser porreiro matar a saudade e tal... mas por saber que tudo mudaria senão o fizesse... copiava os gestos e a paixão
era um karaoke temporal
não precisava da letra em baixo, sabia-a de cor, era seguir a música e não desafinar...
uma onda pequena,
uma onda grande,

sentiu-a afastar-se do seu beijo

uma onda pequena...

- eu amo-te... e tu?

uma onda mui grande como sabia e da qual não se esquivou...

emergiu e estava seco.


viu-a de braços cruzados, perna ligeiramente de perfil,
uma fita grossa branca prendia-lhe o cabelo para trás sem estar amarrado
botas de cano alto, mini saia com camisola de gola alta preta com um cinto grosso branco...
abriu-lhe os braços em estupefacção

avançou para ela e tentou dar-lhe um beijo rápido ao qual ela se esquivou

- hey... achas que isto é assim? chegas aqui e saltas-me à boca?

- despachar-mos isto...

sentiu-se preso sem se conseguir mexer... mentalizou-se para apanhar
colocou as mãos nas ancas diante dele

- ok...

- ok o quê? vamos despachar o assunto... vamos à Sofia que é a que falta, foi a minha primeira namorada, não me deves mandar para a primeira vez que eu e ela coiso e tal porque esse momento não ia mudar grande coisa tirando agora não estar tão nervoso e provavelmente ter uma melhor performance... não que tenha sido mau, aqui o pantufinha faz sempre por ter o serviço bem feito...

- estamos a tornar-nos numa besta....

- e a culpa é minha? estava somente à procura do cavalete...

- e tiveste uma hipotese que ... não... três hipóteses que ninguém tem, que todas pessoas sonham em ter... e o que fazes? nada! vais escolher um deles quando não mudaste dois... quando provavelmente vai correr tudo na mesma...

- sou obrigado a escolher?

- és... ou isso ou nada, esqueceres-te de mim, disto e ...seguires com a tua vida com todos esses momentos perdidos para sempre... todas as oportunidades desperdiçadas duas vezes... que raiva! das-me raiva... como és capaz? deixas passar duas vezes a mesma pessoa...

- se quiseres explico-te antes de irmos à terceira e podemos ir almoçar... íamos ao japonês...

deu-lhe um estalo. empurrou-o para uma cadeira que não estava ali antes mas onde embateu com força.

- eu sou isto, este instante para ti, sou isto até tu completares o teu desejo, e tu... gozas... eu sei que sou isto e aceito, sinto-me feliz até por isso... ao saber o que és, fazer-te feliz, dar-te o que querias, que era ser feliz não? e tu? tu limitas-te a agir como um merdoso qualquer que não dá importância... como se agora fosse insignificante para ti aqueles momentos teus que eu sei que são pesados na tua balança.... sei também que não te fazes de forte agora, não sei o porquê dessa tua indiferença... desse teu "estou-me a borrifar, bora ver do almoço?" quando sei que te custou, te doeu, te fez sofrer e se cravou em ti todas as ausências, de todas elas, de ti com elas, de ti também.
não isto... tu não eras isto... nojo.
não eras assim com as coisas antes disto...
estou arrependida de te ter escondido o cavalete...

- como?

sentiu o som desvanecer-se até deixar de se ouvir.
falava mas não se ouvia, não tinha som.
sentou-se diante dele. fitou-o por muito tempo até o sentir rouco sem conseguir falar.
gastara-lhe a voz.
levantou-se.
túnica branca cobria-lhe o corpo.
era romana nas vestes, no cabelo com caracóis.
não sorria.
aproximou-se e tocou-lhe com a ponta do dedo no nariz

- estou realmente com pena de isto não funcionar com um beijo à esquimó... estou com nojo do que te tornaste...

não conseguia falar, não se conseguia mexer.
queria dizer qualquer coisa, explicar-lhe, sorrir-lhe, dizer-lhe o porquê das suas não opções, ou não mudança... ou dizer-lhe até que já sabia o que queria e compreendia agora... mas não podia fazer nada...
sentiu-a suave e fria na sua boca.
sem língua, que isso fica guardada para um amante
não um canalha como ele

abriu os olhos
viu-a, o seu primeiro amor.
sentada diante do piano de parede no quarto dela
a camisa azul era a dele, estava divina...
o corpo nu somente de camisa coberto...
e ficava-lhe tão bem aquela camisa...
viu-a aproximar as mãos do piano e ficar suspensa milímetros antes do som finalmente se fazer ouvir...

levantou-se da cama em silêncio quando ela flutuava a melodia pelo ar.
rodeou-lhe o corpo pela cintura até ao peito.
beijou-a no pescoço, beijou-a na boca torcendo-a para trás, descendo pelo seu corpo até a estremecer com as suas mãos entre as pernas dela
sentiu-a adensar os beijos, apertar mais o seu pescoço com os dedos
deixou-a levantar
deixou-a puxa-lo para si
deixou-a sentar-se sobre o piano, e o seu corpo contra si

deixou tudo como antes

abriu os olhos

sorriu
mas ela não lhe sorriu de volta

- odeio-te! eu odeio-te...

tentou falar mas novamente, não som....
tentou gesticular mas os braços não se mexiam
tentou pestanejar mas ela simplesmente o ignorava

nem olhava na sua direcção....

- eu pensava que sabia o que eras, e adorava... adorava o valor que davas ás tuas coisas, ao teu passado... por pior que ele fosse depois.
Um beijo de cada vez, cada vez importante.
mesmo quando a outra te torceu e magoou até doer muito e teres que cortar com ela, teres que fugir dela... e o mar ser somente uma recordação distante, ou quando o jardim na Alemanha ser atropelado pela má pessoa daquela mulher... para nem falar da primeira... tu podias mudar isso tudo e nada... podias muda-las, mudar a tua vida com elas nesses instantes, fazer algo, nem que fosse desviares-te de uma onda e responderes - amo-te - no momento certo... abraça-la depois do baloiço e um amo-te também ali ficava bem para quem sabe a prenderes emocionalmente e ela não te fazer o que fez depois... e tu... nada... NADA!
e porquê? não consigo perceber porquê...

e agora...

agora vou-te dar um beijo e tu vais acordar sem te lembrares de mim na situação que te apeteceu escolher... e tudo isto...

palha...

eu gostava tanto de ti...

viu-a avançar para si toda de preto, um sobretudo negro comprido como quem vai partir numa fria noite em viagem.
via-a-lhe o rosto molhado.


- é o nosso ultimo beijo...

limpou o molhado do rosto
estava triste, muito triste com ele.
se antes era simples aceitar o ser das coisas, fossem elas pelo motivo que fossem...
aceitava e era bom.
agora era apenas triste.

segurou-o pelo rosto sem o deixar falar, sem o deixar mexer.

olhou-o nos olhos e tentou não chorar novamente

aproximou-se e tocou-lhe devagar, como se conseguisse que o tempo parasse nesse instante e ficasse assim ou para sempre, ou eternamente...
sentia o molhado do seu rosto nos lábios, nos dele, a meio dos dois
beijo-o demorado e rapidamente várias vezes... até que se afastou.
era triste demais para conseguir não chorar

abriu os olhos e sorriu.

- olá...

esbugalhou os olhos
deixou cair o queixo surpresa

- ah....

- B e C Sari...

aproximou-se e deu-lhe outro beijo, rápido e técnico, e afastou-se para tudo estar igual

- mas...

agarrou-a pela camisola de lã
reclamou-a para perto de si
abraçou-a e beijou-a na cara

- mas... e...

- e ... mas ... nada.

- não compreendo - sentou-se numa cadeira de metal preta que não estava ali até se sentar- eu sei o que estou aqui a fazer, e... era suposto agora...

- eu ficar com aquela que eu quero?

- exacto...não sei... confesso-te que não sei qual delas ias escolher já que não mudaste nada com nenhuma delas... mas talvez a Sofia... não sei... e estás aqui...

-contigo...

- mas eu sei que as coisas são como são, sei que era agora que estarias lá... na tua opção.
não preciso de saber o porquê quando sei que é e aceito que assim o seja... agora tu aqui...

levantou a mão e depois de o sentar numa cadeira igual à sua puxou-a pelo ar até ficar diante de si.

- não percebo o que falhou... tirando obviamente teres sido uma besta e teres deixado tudo igual... mas...

- posso falar?

- não, não tens direito. és um verme, um nojo, depois do que fizeste e melhor... do que não fizeste tirando aproveitares-te e andares a comer as ex's com a minha ajuda ainda por cima, não tens direito a nada.

- beija-me outra vez, pode ser que...

calou-o com a boca...
sentiu-o rodopiar dentro da boca, sentiu-o sorrir nos seus lábios... abriu os olhos e viu que não só continuava ali mas viu que também sorria como se fosse o seu dia de anos e tivesse "finalmente" recebido um pónei

deu-lhe um estalo.
mas... estava a gozar com ela? a pedir-lhe beijos para gozar com ela?

- mas tu queres que eu te magoe? que dê cabo de ti? tu sabes que eu posso se o quiser, é tão simples como pensar no assunto...

estava irada, avermelhada no rosto e expansiva nos gestos de ameaça, digamos que se tinha passado.

com força

(e empenho)

atirou-o pelo chão para reler a Agatha Christie mais uma dolorosa vez, avançou sem saber o que ia fazer quando lhe colocasse as mãos em cima, apenas sabendo que lhe ia doer... muito.

- eu desejo-te a ti...

agarrou-o pela camisola e levantou-o.
atirou-o para o chão
empurrou-o com o pé fazendo-o deslizar até embater na parede
ia magoa-lo mais... se ele pensava que podia se aproveitar dela e...

- o quê que disseste?

viu-o tentar se compor. sentar-se era complicado quando o chão não é um sitio fixo e credível

- tu... eu desejo-te a ti.

avançou veloz e ajoelhou-se ao lado dele
afastou-lhe as mãos sem que ele tivesse voto na matéria que ele levantara para se proteger
levantou-lhe o rosto na sua direcção

- o quê que tu disseste?

- eu tu... eu desejei ficar contigo... tinha que escolher e...

- estás a gozar comigo? tu fizeste o quê?

levantou-o e sentou-o num banco de estirador que não estava ali antes
tirou o casaco comprido e ajeitou a camisa branca.
puxou ao sitio as jeans azuis e voltou a erguer-lhe o rosto na sua direcção.

- fala, explica.

- sim...

doíam-lhe os braços, as mãos, o queixo e o rosto, tinha pontadas nas costas, tinha um pé torcido e a inchar.
doía-lhe tudo e mesmo assim de vontade rapidamente se apoderou do rosto dela e encostou o lábio inchado à boca surpresa de Sari
hávido e sedento
pensou, criou e desenhou todas as imagens que sabia que ela tinha o poder de ver na sua mente
enquando deixava a sua boca - e doia-lhe... muito - fazer o resto do serviço
afastou-se e receou...

- acho que percebi.

sorriu

beijou-o

enves de ser momento era presente.
não era energia e ser para comprir a missão, os três desejos, era pessoa agora, ser real e definitivo.
livre de um abre cartas.
livre para ser
livre para ser com ele

com um tremendo mau feitio e um enorme guarda roupa.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Abre a janela do teu quarto mulher!

colocou a mão no peito. confirmar vida, prova que era humano, estava vivo e coiso e tal.
as mãos estavam frias, arrepiou-se, bom sinal.
era por alguém?
era com alguém?
era para alguém?
ou ninguém que se encontrava alí?


era humano ao menos, bom sinal talvez, prelúdio de grandes dificuldades...
graça e virtude nos seus desenhos, empenho e talento... pelo menos vontade.

o que já era muito bom.

qualidade é sobrevalorizada quando o que interessa é o convívio, é a piada que somente dois num jantar de trinta se desfazem a rir.

respirou fundo e deu as condolências às suas hesitações, foram uma boa companhia, fiel e presente durante muito muito tempo na sua vida, mas tal como aquela ex que nunca se calava... teve que as mandar abater.

tirou os sapatos
porra, descalçou-se e sem pensar...
correu pela areia até ao mar... a caminho desnudou-se camboleante, mas sem perder direcção ou desejo.

gelada, dolorosamente gelada no rosto primeiro em pequenas gotas, depois nos pés até mergulhar e todo o corpo estremecer, se soltar e viver estridente

cordão umbilical cortado, falta todo o resto.
oh se falta... todo um resto de anos a acumular pó até ao presente, até despir o casaco molhado num dia de sol

até a voz e a imagem diante do espelho... estarem finalmente ao mesmo tempo.
era tempo de coisas novas, diferentes...

ou da mesma coisa mas em diferente

mudar radicalmente de café e morango no gelado para morango e café

deixar para trás no tempo as meias-de-leite e pedir um galão

deixar de ser um canalha para as mulheres e ser somente um pulha, um pulha galante obviamente

como se ele já não fosse o mesmo, e alguém distante, observador isento de si mesmo, do seu passado
e tudo ter recomeçado, diante de si lápis de cor - dos comestíveis óbvio, e folha branca

era o momento que ansiava, o momento em que se libertava e arrancava para a curva antes da meta isolado e distante... mas acelerava

só porque podia acelerar...

e sentir o vento veloz no cabelo.

vestiu-se, meio molhado -o que isso importa, e afastou-se do mar...
sorria, sorria com o rosto todo, com todo o ser
era mais que humano, era energia e vida, era o que ia fazer antes de ter feito
era rodopiante e determinado, era grandiosamente pequeno no gesto que conspirara
um pequeno gesto.

um pequeno gesto criminal.
(afinal era uma doce delinquência, arquitecto a pintar nas paredes...)

fitou-se no seu reflexo, o seu rosto antigo como quem aguarda perdão...
pediu-lhe desculpa, mas tinha que o deixar partir...
depois dar-lhe-ia noticias, mas a decisão era final definitiva, e irreversível

(já tinha as mãos todas sujas de amarelo...)


bateu-lhe na porta de casa, não da rua como os estranhos, mesmo na madeira de quem não precisa de convite para chegar tão perto
aguardou.

sorriu-lhe

atirou-lhe um beijo sem pedir licença, invadiu-lhe a boca voraz mas ternurento até sentir que era reclamado e não um invasor
sujou-lhe roupa e cabelo, pele e rosto com as mãos de amarelo


entrelaçou-lhe os dedos na sua mão e arrancou com ela pelas escadas até à rua
contornou o prédio até ficarem na rua da janela do quarto dela, na rua onde tantas vezes aguardara vê-la na janela surgir... venenosa nos seus encantos
mulher demónio deslumbrante

- disseste-me sempre que gostavas de flores... e estava tudo fechado...


sábado, 11 de outubro de 2008

...Forever Young...

Algumas vezes era demais, muitas outras vezes igual.
algumas vezes dentro de água, olhos abertos...
algumas vezes era a melodia envolvente, mais que a batida...

era sempre estranho, aguardando algo que não vem.

era mais que este vazio cheio de coisas que não consigo totalmente compreender - ou não as quero.

opções minhas que me destroçam, que me magoam quando não as quero tomar, e sei que tenho...
memórias ou sonhos horríveis que sempre se lembram de me acordar, que me gritam aos ouvidos, que esmurram nos dentes sempre com aquele sorriso camarada de quem nos vai cravar o pequeno almoço.

como sempre...

dá vontade de agarrar naquela pessoa pela mão, rodopiar a sua fantástica silhueta em meu redor até não haver música que nos acompanhe, não haver motivo para ali dançarmos e ser apenas...
estarmos a olhar para o céu.

para sempre.

queria então eu ser eu nesse momento... ser esse momento totalmente - como a água envolvente...

é difícil envelhecer sem um rumo, sem porto azul de destino...

e eu...
à procura desse meu porto azul.


anda dançar com estilo... presença e força, volta para trás comigo no tempo, solta o teu cabelo e sorri

numa praia de areia fina, ou mesmo da grossa que nos faz cocegas nos pés...

onde o mar quebra mais forte e nos salpicamos ainda distantes...

nós ali... numa fotografia a preto e branco...

para sempre.

seriamos a tal melodia... música flutuante, no teu cheiro ao beijar o teu pescoço... ao morder o teu pescoço.

mas é coisa que não me pertence.

essa dança feliz, essa frase de quem diz que o mundo pode esperar... afinal, ainda estamos a olhar para o céu.

pertence-me os meus "para sempre" sinceros, e os falsos... em que acreditei.
onde me espalhei tosco.

já não é bom aquilo que foi, contigo, comigo, connosco e com os outros, com todos nós e a pestana.
já perdeu o gás a bebida, e sinceramente... se for para morrer como esta, dá aquele desanimo de pedir o mesmo outra vez.

Já não tenho tantas camisas engomadas no armário como antes...

já não tenho a paciência de me barbear...

já nem me recordo da letra daquela música catita que inventamos, aquela que terminava num teu solo esganiçado de voz...
já não me lembro sequer do teu nome mulher.

mas sei que dancei com estilo.... triunfante.

vamos morrer jovens ou viver para sempre?
será que a música é somente para os homens tristes? tocada por um homem louco para quem se enganou na sala e ainda não percebeu onde é a saída...
porquê que não conseguimos estar nesses momentos mágicos e ficamos tão presos naqueles outros que nos controlam... mesmo sendo no tempo distantes?

sei que gosto de "para sempre", como se fosse um selo de qualidade no produto, um sublinhar de empenhamento, mesmo que acabe no seguinte instante... ter sido verdadeiro na intenção.

sei que dancei com estilo... triunfante, e os meus para sempre era para sempre mesmo.

nem que fosse por uns simpáticos três minutos.

fui fonte de terno calor, daquele envolvente no pescoço, seguido de um beijo ternurento que diz que tudo vai ficar bem... damos a volta ao marcador na segunda parte...

Algumas vezes era demais, muitas outras vezes igual.

sempre o mesmo desfecho.

algumas vezes dentro de água, olhos abertos...

ou eu sozinho num plano paralelo, e o mundo todo distante.

algumas vezes era a melodia envolvente, mais que a batida...

que me raptava para o fundo da mente, onde ai... agora é difícil encontrar aquela tua deliciosa imagem...

como se fosses diamantes ao sol... e os diamantes... são para sempre.

bom era seres tu ao sol para sempre.

era sempre estranho, aguardando algo que não vem, como quem aguarda e não te vê passar.
(o que até teria uma sórdida, cruel e irónica piada)


ah... para sempre...

sábado, 20 de setembro de 2008

Direito de Resposta Cavalheiro...



Meu grande estupor...

tempo é coisa que não tenho, é algo que como tu me foge pelos dedos...
preferia o teu cabelo nestes, puxa-lo, despentea-lo, cheira-lo como se não houvesse amanhã.
é quase como se um de nós tivesse que perder esta guerra... e eu preciso de ti seja como for.

porquê que vieste aqui?

fizeste-me gritar contigo... tive uma péssima actuação, tão distante da pessoa de classe que te habituei.

tirando obviamente em situações onde criatividade, empenho e pulmão são mais valias, não propriamente portar-me como uma senhora.

seja como for é uma resposta à tua carta, ao teu tango a Bella Charis, não esperavas que o fizesse pois não?

acho que prefiro cair sozinha, sempre te manterás de pé espero, não eu que sem ti...
desvaneço-me, sou ninguém.

mas vamos à resposta que é para isso que estou aqui a escrever... depressa, mal e porcamente.
porquê adiar o assunto mais do que tenho adiado?
será que tenho a tua atenção agora?
será que agora que nada temos...
nem sei por onde pegar no bicho e tu não ajudas.


serás tu forte?

ou serei apenas eu fraca demais e tu preenches esse vazio na balança?

queria ter opção diante do meu rosto, um teste fácil de sim ou não.
preencher o nome, dizer aquilo que sinto sem abrir a boca - para não me sair asneira- e sentar-me ao teu lado, encostar-me e...
deixar o tempo passar.

estou a ser lamechas, mil perdões.

e ainda nem comecei a dizer o que ando à tanto tempo a organizar para te responder.

há aquela ideia de nos maus momentos, quando nos arrancam algo que gostamos de dentro, todo esse espaço... esse nada que se expande até não sabermos como o suster, é algo onde podemos colocar o que quer que nos apeteça lá meter...
é o teu lado positivo de falar das coisas.
acho que já perdi a ideia do que tinha para te dizer uns bons minutos atrás...
acredita, podes confiar em mim, era um texto arrebatador.

ias aplaudir-me em lágrimas, tombar aos meus pés, escrever-me odes de louvor, pintar-me quadros e ... espera um pouco...

já fizeste isso.

esqueci-me desculpa.

mas que era um bom momento para o português era.
tinha um começo vibrante e que te enredava, suspenso, linha após linha, palavra atrás de palavra...
uma piada para desanuviar, umas três ou quatro citações literárias, um verso da Tracy Chapman para dar ambiente, e no fim...
a minha esperada declaração de amor...

pena que me desorientei...

mas eu sei que ainda estás ai a ler, caramba, eu sei que estás sempre ai atento.
dizia-te que não quero mas mentia,
e mentir-te não sei.

Gostei de estar no teu quarto outra vez.
(apesar de estar deliciada por estares a dormir agora no meu)
ver aquelas duas telas brancas no chão ao lado do cavalete, à espera, aguardando que te levantes a meio da noite como sempre, as possuas desesperado por aplacar a ideia que te invadiu... que te tira o sono e que tens que ver real, no cheiro a tinta, nesta no teu cabelo e roupa, naquele teu sorriso cansado mas vitorioso de quem se superou.

gostei daquela tua piada quando entrei... simples mas sacana, como tu meu caro, como eu e tu...
como se aquele instante fosse encaixado noutros anos antes e tudo estivesse emocionalmente igual.
e eu não me sentisse assim culpada... preocupada... perdida.
aquela merda que me fazes, de olhares para mim em silêncio, espectante... eh pa... odeio.
corta-me fundo e destroça-me.
pára com isso... fico sem saber o que fazer... o que te dizer, o que ser diante de ti.

pára porque eu quero demasiado isso...
tenho medo que não seja real.

também não quero ser do tipo de pessoa que se apaixona, que se entrega cega e acha que está tudo bem.

não me apaixonei porque isso implicaria um começar a gostar, quando desde o nosso primeiro instante - quando te dei um pontapé sem querer - estava tudo certo e perfeito, eras tu e eu e mais nada, só os dois no mundo... ok... os dois e a porcaria do porto na liga dos campeões...
as vezes que reli a porcaria da tua carta, confesso que tem o seu estilo retro, carta amorosa é old school, abrires-me a porta para passar também... como se eu não soubesse que invés de educado tu aproveitas para inspeccionar o corte das calças de ganga... a qualidade do tecido no corpo...
tu só pensas nisso...



gostava de amanha acordar ao teu lado mas no teu quarto.
podias estar a rossonar como o porco que és quando dormes, mas estares ali ao meu lado.
olhar para o cavalete - onde glorioso se encontra há muito aquele quadro gigante que pintaste de mim - e ver ao lado deste não duas telas brancas mas; caprichosa e egoísta, quiça eu mesma...
nestas encontar um sorriso teu para mim, um galanteio...
até pode ser um pato desenhado a lapis de cera, um circulo com tracinhos a fazer de sol sobre uma casa quadrada com a chaminé o avião com as asas de lado...
desde que me diga de alguma forma que ainda está ai, que ainda estou ai no que sentes.

não é obrigatório ser obviamente eu como nos outros.

e sinto-me tão culpada...
e mesmo assim tenho estes caprichos, estes pedidos e... preciso de ti...
e tu...dormes meu boi.
tu tás aqui como se tudo estivesse bem, como se não fosse nada importante, como se não percebesses o medo que tenho de ao acordares... não me reconheceres, não me quereres... e pintares o pato para outra qualquer.
como aquela vaca gorda que se pos a rir para ti no café... sou invisivel? não me via sentada ao teu lado? bem feita que eu tava de decote e tu não desviaste dos meus olhos a atenção um segundo - sim, nem eu acredito nisso, continuas a só pensar nisso... és horrivel!

já tenho sono e não consigo escrever como devia, queria e até pensei em o fazer.



se soubesses o texto fantástico que preparei...


dirias-me - por ser em vão é que é belo...

sim, há uma beleza nos gestos que não mudam nada, que para nada servem como esta porcaria que te escrevi, mas foi sincera... acredita que saiu com a ternura de quem te berrou mas está muito arrependida, quem te bateu e se aleijou - partiste-me a mão com a cara...

enfim my love...


da tua

Sra dona Bella Charis




P.S. - sim, isto não ia acabar quando era suposto...
mas já agora, e como eu te amo loucamente e só te quero bem...
atreve-te a pintar o que quer que seja que não seja de mim ou para mim que vais ver onde te enfio a liga dos campeões, o Lisandro Lopéz e o cavalete...

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Oh... Cherrie....

Queria-se despedir dela bem. Não teatralmente falando, frases shakesperianas, compridas e sonantes, musicais e de punho cerrado para o ar, apenas o queria fazer a de algum modo roubar-lhe um sorriso, um gesto qualquer doce ou suave para si, e queria estar atento para reter esse instante com força .
talvez fosse essa a sua ultima oportunidade junto dela.

sorriu sarcástico no pensamento do "talvez", como se houvesse para ambos outra qualquer solução.

pensava e repensava, pensava outra vez para ficar bem mexido e complicado, parava de pensar e divagava novamente no pensamento do que queria dizer.

só mais uma vez...

não sabia se queria mais uma hipótese com ela, se queria ficar sentado na mesa do costume toda a tarde, naquele café de todos os dias, cupccino habitual, a companhia dela como antes.
ocurreu-lhe um pensamento diferente, devia ter bebido mais cerveja, uma sequer... talvez embriagado pela cevada, dormente, anestesia salvadora da cerveja o ajudasse a despachar o assunto sem receios, sem rodeios, sem o medo do último instante se perder.
já tinha subido a porcaria da rua tantas vezes...mais do que ela a tinha descido... ah mulher caprichosa, donzela altiva no cimo da tua torre...
estranhou o prazer que sentia em cada passo, sabia que era a ultima vez que ela era o seu destino, que pé ante pé subia para a ver, e inspirava o gesto até se desfazer doce na boca, descolar perfumado do seu nariz...
era a ultima vez... mas com força!

ao fim de tão tortuoso caminho - caramba, também não era assim tão longe quanto isso, eis que ela surge, como sempre...
ah... ansiada imagem, o cabelo negro sobre os ombros, desta vez o olhar atento às linhas do livro que lia concentrada, pernas cruzadas, apoiadas numa outra cadeira, o rio lento e preguiçoso, talvez da hora, fugia para o mar atrás da sua imagem...
respirou devagar e avançou, sentou-se sem palavras e sem estas ficou.

- estou a acabar o capitulo... espera um pouco...

esperou, aguardou.
manteve-se atento ao ondular da água à sua frente, ao pairar rodopiante, em queda e flutuante das gaivotas no ar.
ouviu o som tão particular e distinto de quando um livro se fecha ao seu lado.
sentiu-a nos seus lábios sem aviso, sentiu-o o corpo dela sentar-se em cima do seu, abrindo-se, puxando-o para si.
sentiu o cheiro dela seguir o sabor na sua boca que o exasperava, a mão dela puxa-lo pelo pescoço para dentro de si, como se disse dependesse a força dos seus beijos, sentia-a sorrir na sua boca, sentia-se a perder todo e qualquer texto que tivesse organizado na viagem até ali...

não a afastou... alimentou o beijo.
sentiu-lhe o corpo com as mãos, sentiu as dela frias sobre a sua roupa contra o seu peito...

- porquê que te atrasas sempre...
- mas eu cheguei antes da hora combinada...
- precisava de ti antes...

levantou-se, puxou-o pela mão atrás de si
esbugalhou os olhos no desenho do contorno do corpo dela, as ancas, o reflexo preto das calças, e ela... sabia que tinha qualquer coisa importante para falar com ela... qualquer coisa importantíssima como as coisas importantes são.
parou diante de si e virou-se.
segurou-lhe o rosto com ambas as mãos, sorria... ah e começava a doer-lhe vê-la sorrir...

-porquê que estás assim tão sério? o que se passa?

perguntou-lhe empurrando para longe o sorriso
queria-lhe dizer, queria falar com ela de muita coisa, queria saber bem o que dizer de um modo poético, de um modo que vincasse nela o que sentia, para que não se esquecesse de si, daqui a uns anos a reencontrasse numa praia - para ser romântico, e lhe reconhecesse a ternura que tanto lhe custava agora magoar, para que quando de si falasse fosse em desejo, fosse na ânsia de o ter de novo, fosse somente uma memória que tivesse cativa com ternura, mas...

deu-lhe um beijo, desarmou-a.
deixou-a confusa, olhava para ela na certeza do que teria que fazer, beijava-a na vontade do que queria que fosse.

abraçou-a e levou-a para longe do rio.

acordou.

sentiu o corpo dela sobre o seu.
sentia o calor dela nua, o respirar lento e tranquilo de quem dorme profundo e em paz.
beijou-lhe por instinto a nuca, cheirou-lhe por reflexo o cabelo, o cheiro quente e hipnotizante que adorava reter em seu redor.

passaram-se horas até que ela acordasse, minutos que sorveu sedento, que reteve na angustia de irem de algum modo ser os últimos...


Desligou a aparelhagem que à muito estava ligada sem que dela música tocasse.
há muito que se mantinha flutuante numa indecisão de ir ou ficar diante da porta.

ás vezes nada mais há a fazer...
e fazer o quê outra vez? ficar quieto? era a alternativa que lhe restava e agarrou-a.
saiu de casa, avançou fechado em si mesmo.


ah... ansiada imagem(receada também), o cabelo negro sobre os ombros, desta vez o olhar atento às linhas do livro que lia concentrada, pernas cruzadas, apoiadas numa outra cadeira, o rio lento e preguiçoso, talvez da hora, fugia para o mar atrás da sua imagem...
respirou devagar e avançou, sentou-se sem palavras e sem estas ficou.
olhou para ela, tão perto de si... ali do seu lado.
sentia-se pressionado por si mesmo, pela vontade de encontrar aquela frase perfeita que lhe roubasse a atenção dela do livro que lia, para a fazer sorrir e de alguma forma... puxa-la para o seu mundo...

sorriu, sorriu no pensamento - deves-te peidar como um coelhinho, é uma frase com piada entre amigos mas talvez uma má opção quando platónicos romances se transformam em respostas reais como um sorriso, um gesto de apego... ou numa ordem de restrição que era o mais provável ante tal subtil - e romântica - abordagem.
era estúpido não querer perder a imagem perfeita que imaginava, o vazio onde podia colocar tudo o que queria, e não deixar que a realidade daquele ser estranho concentrado nas letras e linhas de o bosque dos mítacos... caramba... era demasiado irónico para não lhe dar vómitos.

perdido no vai e vêm dos seus receios, deu por si sozinho ao pé do rio.
tinha-se ido embora.

continuava tudo na mesma... os mesmos espaços em branco, as mesmas incógnitas, o mesmo nome que dela não sabia... e queria tanto o saber...
queria vê-la sorrir, queria ouvir a sua voz para dela ter uma ideia, queria esbracejava as palavras em gestos, se era contida no gesticular, se
queria saborear esse instante que mesmo em vão... era seu.

idiota.

“-percebeste?

- sim, percebi…

- percebeste mesmo?

-sinceramente não, mas já não tenho paciência…

 - eu vou-me embora… queres saber porquê?

- e continuares a falar? Não… eu confio no teu julgamento… e tendo em conta o que eu acho… era como uma bufa durante um furacão

- vai para o inferno… de certeza que já deves ter lá um lugar reservado…

- ena! Óptimo, odeio ficar à espera em filas…

-metes-me nojo… nojo! Diz-me – colocou as mãos nas ancas – tas à espera que eu te faça alguma coisa agora? Tas à espera de alguma coisa?

-  estar à espera não estou… mas podias-me ir buscar uma cerveja que tá quase a começar o Porto…

- vai à merda… tou farta… vai à merda…e achas que ficaram do teu lado porque tinhas razão…

- ficaram do meu lado porque primeiro tenho razão e segundo, nunca se sabe quando podem precisar de um rim… coisa que sempre fui é ser um gajo generoso… e tirando ires buscar a cerveja tu não serves propriamente para muito…

 

ficou calada, boca meio aberta, queixo ligeiramente para o lado.

Aproximou-se. Cerrou o olhar procurando intimidá-lo

- se achas que eu vou engolir as merdas que…

- se não queres engolir… preferes em supositório?

- tu vais ficar sozinho… vais ficar sozinho muito tempo…

- por algum motivo Deus presenteou os homens com polegares oponíveis…"

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Shake that body... for me... shake that body...

Acordou no sobresalto da pancada forte, o vibrar do telémovel agora no chão.
tentou não acordar e desligar o estupor mas o gesto era demasiado longo para não mexer o tronco, sair do transe e acordar para o mundo real.
- tás acordado???
-humf... agora tou...
- tens a certeza? ainda não disseste a tua frase registada...
- frase?... ah, foda-se não se pode dormir na puta desta casa... melhor?
- perfeito, tou no café, despacha-te e tomas o banho depois.

malhou. não foi um tropeçar ligeiro, foi mesmo um mágnifico espalho na tentativa de calçar o téni. Doia-lhe a cabeça, tinha o pescoço com um chupão e o braço inchado. doia-lhe o joelho e descobrio a camisa azul que vestira ontem rasgada em três sitios.

- porra, tanto tempo para vestires essa t-shirt e umas calças??? - abriu os braços à pintas italiano ao ver o amigo, afastou a cadeira ao lado da sua na mesa onde estava com o pé convidando-o a sentar-se - ok...  ontem... Tu... 1º ravioli, 2º morena de 1,75 de olhos verdes e 3ºliguei-te cinco vezes e tu rejeitaste as cinco 4º foste visto a dançar com a morena no mood as 3h30 e  5º a mensagem que me enviaste as 5h30 a dizer e passo a citar sua excelência - está cientificamente provado que os gays leem as mensagens de telémoveis com os polegares... podes começar a contar que já mandei vir a meia de leite po sr.

- doi-me a cabeça... fala baixo por favor...e  com carinho que estou sensível hoje...
- não é problema meu... tou à espera...
- tudo tão vago... tão... imagens... vagas...turvas, o medo... o horror...
- apocalipse now... boa, original, conta porra!
- lembras-te de te falar daquela miuda da turma do 3 ano que encontrei no outro dia?  - aguardou pelo acenar positivo para continuar - tinhamos ficado de nos encontrarmos e... ela atrasou-se, do café ficou para o jantar e levei-a ao ravioli...
- mas tu levas as gajas todas ao ravioli porquê?
- eu já te levei ao ravioli... que eu saiba não és uma gaja apesar essas calças enfim... e nunca tentei saltar-te para cima...
- tirando aquela noite em que eu tava bebado e tu carente...
- essa piada é minha...posso continuar? eu não faço questão de contar a história...
- força...
- continuando - deitou o açucar na meia de leite e reparou que tinha os nós dos dedos esfolados...- fui com ela ao ravioli...
- desculpa interromper outra vez, é a outra miuda com quem te davas da turma de teoricas? a PELAMORDEDEUS! 
- já nem me lembrava dessa alcunha dela... sim, ela...
- eeeeeeh lá! mas pela amor de deus! respeito, muito respeito...continua...
- posso? se não quiseres...
levantou a palma da mão, o olhar para o céu em contemplação inspirada - agora já, foi um momento de pausa para saborear as boas e decotadas recordações que ela...
- fomos ao ravioli, falamos sobre o erasmus dela na rep. checa, ela agora tá cá para ficar, até mora ao pé da faculdade...
-mas eu quero lá saber se ela faz sudoku e gosta de celine dion, avança... tás prai com lamechisses, filme porno não tem enredo...
- não é uma historia porno...
- por enquanto...
suspirou, ia encolher os ombros mas doeu-lhe, reviu mentalmente a noite anterior e esboçou um sorriso, corou e tirou os oculos escuros que o protegiam do sól
- eeeeeh lá! ela bateu-te?meu tás um guaxinin do caraças, eh pa, se perguntarem eu é que dei no focinho porque me faltaste ao respeito num jogo de suéca... sempre é melhor do que... tás com um olho negro pá! levaste no lombo da miuda?
- não como tu pensas... já vais perceber...
- tu é que tás a enrolar... ela bateu-te porque lhe disseste que eras abonado e depois quando chegaste à altura aquilo...
- mas porquê que tás a falar do meu penis!?!! não cites o Megatron assim do nada... e deixa-me contar pá...
- força... apanhas-te de uma chavala... ah pantufinha.... a menina mau bateu no panfutinha...
-adiante... a meio do jantar... eh pa, ela diz que ainda não tinha ido sair desde que voltou à dois meses, não teve tempo porque andou a tratar da casa...
- fonix, tas-me a dar sono...
- fomos sair depois do jantar, fomos po bairro, lembras-te que fomos po Mood no ano em que fomos colegas num jantar de turma? fomos para lá numa de saudosismo... e... pera, fomos antes po café no Monumental, bebi uma cerveja alemanha sopinpa 
- sopinpa?
- Mágnfica, ficamos lá até sermos corridos e fomos po bairro, a meio caminho, tavamos a estacionar, e ela diz-me " eu tinha uma panca por ti... e tu eras muita mau... não me davas trela nenhuma..."
- tu tavas sempre atrás dela...parecias a tua cadela a babar pá  picanha... gajas pá... tu tavas sempre a falar com ela e emprestavas-lhe os lápis...
- ya, gajas...ela diz-me isso e não me dirige palavra do cais do sodré até ao camões! olhava pa mim, sorria, empurrava-me com o ombro, e até me deu a mão quando passamos por um maranhal de pessoal a descer no sentido inverso para não nos afastarmos
- parece que tás a escrever no diário... "ele sorriu para mim... será que gosta de mim? o Bon Jovi é tão giro..."
- tu achas o Bon Jovi giro?
- tu é que querias ir ao concerto...
- queria ir pela música...
- sim, e nós namoramos com gajas pela personalidade e companhia...
- foda-se tu és pior que aquela tipa com quem namorei no verão...tás sempre a interromper...
- tu não contas a história!
- tavamos no mood...
-tavas a ir po mood
- obrigado... se quiseres continuar... optimo, tavamos no mood, ela não me dizia nada desde o cais do sodré, assim que entramos, ela puxa-me po meio do pessoal e começa a dançar... para mim... comigo mas para mim... a olhar-me de baixo para cima... eh pa, sorria, encostava-se a mim... até que há uma altura que ela poe os braços à volta do meu pescoço... rodeou-me o pescoço sem parar de dançar... morde o lábio... meu...aproxima-se de mim, do meu ouvido... não faças essa cara de javardo quando tou a contar a história pá, desconcentra-me... ela aproxima-se de mim... diz-me " não dizes nada? ficaste chocado por te dizer que gostava de ti?",afasta-se, poe as mãos nas ancas e para de dançar à espera que eu responda... só me apetecia dizer-lhe - leva-me para casa e dá-me banhinho....aproximei-me dela, ela não se mexe, eu levo o meu nariz ao pescoço dela... eh pa, snifei-a como se não houvesse amanhã, aproximo-me do ouvido e digo
-DÁ-ME A TUA COOOOOOOOOON....
- eh pá...
- sorry, empolguei-me...
- digo-lhe - ficas chateada se te disser que era mutuo?
- e ela?
- da-me o melhor beijo da minha vida...
- VICTOOOOOOORY!!!! eh lá, a facturar... lisandro lopez...
- ela... meu, agarra-se a mim, aquilo era... eh pá, como se ainda agora tivesse o sabor dela na boca...
- fonix, ela sabe a meia de leite e pastel de nata? estragaste tudo...
- pokeralho... 
- continua... 
- ficamos não sei quanto tempo a fazer a Hidra de duas cabeças e um só corpo no meio da pista, colados, eu afalfei-a toda mas menos do que ela a mim... foi simplesmente ninja...
- ok, Mood tá contado mas não explica as escoriações e o olho à pirata...
- saimos do mood e ela diz-me - "quero-te levar a um sitio meu... especial..."
- " á porta do desejo em teu ventre" como diria o grande Toy... tu tiveste no woochie woochie com ela! 
- o quê que eu ja te disse sobre woochie woochie? qual foi a unica coisa que eu te disse sobre sexo?
- ah... que não gostas de surpresas...ou porque  alguém se aleija ou alguém se assusta...
- ...que não comento se sim ou não e a resposta é não...
- demoramos quase meia hora do mood ao cais do sodré, eu não dava dois passos sem que ela me saltasse para cima... entramos no carro, ligo o rádio e trufas... shake that body...
- dos technotronic? shake that body for me...  shake that body for me...??? 
- nem mais, tavamos na onda, ela diz-me - "café in faxavor", cada semáforo... meu deus, eu quase que pedia para me baterem com paus para ter a certeza que táva ali e era mesmo...
- não comeces com descrições abixanadas, paraste o carro e mostras-te-lhe porquê que te chamam " o devasta"
- parei o carro e ela sai, saio atrás dela, ela abraça-me , da-me um beijo ligeiro e sorri, diz-me a meio de um beijo "acreditas que eu passei meses a fantasiar que te dava um beijo... aqui!" - perguntei-lhe... porquê aqui, ela diz-me que era romântico, a ponte, o rio, a noite, a minha pessoa...
- acho que vou vomitar...que nojo de história... coisa mais à gaja... e tu?
- eu sorri... disse-lhe que também tinha pensado como seria dar-lhe um beijo...
- e ?
- ela pergunta-me como é que eu tinha imaginado... eu aproximo-me dela, devagar, muito devagar, encosto o meu nariz no dela... e dei-lhe um beijinho à esquimó....
- e como é que isso explica a sessão de sapateado da tua cara?
- fiz-lhe comichão no nariz e ela começa a rir-se, espirra e vai a cair para trás, para o rio, acerta-me com a mão no olho, eu seguro-a pela mão e ela estica a perna no gesto de cair para trás, da-me uma pantufada no meio das pernas, eu puxo-a para mim e ela cai sobre mim, eu cai de joelhos, ela tropeça e empurra-me e acabei a noite dentro de àgua...

terça-feira, 5 de agosto de 2008

...Qualquer coisa....



"... pudesse eu mudar o imutável, tornar o tempo interminável e viver para sempre...
acharia aceitável, tornar-me por ti frágil, humano... só para ter o teu amor..."

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Amor más más louco...

Listen to my story cause there’s something there for you,

Why is it you make me crazy... with that sweet thing that you do

You make me get down on my knees, you make me laugh you make me cry

You make me thing about it all ... you make me even wonder why

Why I am talking and thinking about your brown eyes,

Thinking about all the time we spend, sometimes until sunrise

Why is it you make me crazy... with that good thing that you do...

You make me crazy, yes I’m crazy…

And that’s cause of you…

There is something... over my head…

There’s something over my…

Amor más más loco… para tu y yo

Amor más más loco… para tu y…

(come to me amor…)

you know you’re sweet… summer time candy, just can’t stand it…

didn’t turn out how we planed….

You left about an hour ago, though about ten reasons why you should so…

As one...

You don’t know what you done

And two…

You don’t know what you wanna do

But three

You know what you did to me

Oh four…

You want to get some more

And five…

You’ve taken my live…

Maybe ten…


I’ll do it over again…

There’s something… over my…


There's something over my head...

Come to me Amor…


( at the end, I accept that some things will never change...)





Nota a anónimo : a letra, ou a sua adaptação - tendo em conta que cortei, modelei umas quantas palavras da música não é da minha autoria, e está longe de ser uma transcrição...

após tal reparo...

a música de seu nome More Love Jon Licht (como surge designada no myspace do autor) é de Daniel Licht, autor da banda sonora da série Dexter.

A banda sonora da segunda temporada da Série Dexter ainda não saiu nos EUA, como tal ainda não se encontra disponivel para download, mas encontra-se disponivel no my space - download não disponivel infelizmente - de Daniel L.

Agradecia a Anónimo caso encontre a música em formato mp3... tivesse a gentileza


até lá sempre se pode ouvir no myspace de Daniel Licht

http://profile.myspace.com/index.cfm?fuseaction=user.viewprofile&friendid=144736282

ou reve-la a nu na série...

http://br.youtube.com/watch?v=2vWQ7N65E6U


sexta-feira, 18 de julho de 2008

oh...e ai vem a luz...

"... as trevas nã0 vão demorar..."


O céu à muito que se fecha, sobre mim... não sobre nós.
oh imagem atroz, essa tua.
Tivesse melhor forma de fincar os pés no chão e na minha a tua mão rodopiar... um suave giro sobre o nosso eixo.
talvez levantasses o pé para ficar mais elegante o gesto, talvez me aproximasse de ti um pouco para quiçá roubar-te um beijo.
talvez tivesse eu sentido que era vontade mutua estarmos ali os dois.
não era minimamente o caso agora eu sei.
Não há sombras neste lugar, sem luz que as desenhem.
Não o rosto das coisas que estão para vir, não há indicação de um qualquer caminho até ao sol, não há por onde entre a luz.
É uma música que já não toca mas nos lembramos, sozinho baloiçando o corpo num gesto tão vago... quase inexistente.

forçando encontrar na memória um cheiro que me era tão natural que não o marquei e etiquetei para não o perder.
É muito menos fácil do que antes, dormente pela dor e ausência, é a frio.

e a frio doí muito.



sábado, 5 de julho de 2008

Le Roi est mort... Vive le Roi!!!!

Afastou-o violentamente, com repulsa, nojo.
Estranhou-a, o gesto, o olhar... mais do que as palavras.
puxou-a para si de novo, procurando de alguma forma encontrar dentro dela algo que lhe indicasse que estava perante a mesma pessoa que tão bem julgava conhecer.
- Sai! larga-me porra, estúpido... sai daqui... vai-te embora!
Empurrou-o com força para longe - odeio-te e não te quero ver mais à minha frente.
ditas estas palavras arrependeu-se. Primeiro pelo seu paladar tão determinado e definitivo, depois por lhe reconhecer a mesma expressão séria que o vira desenhar sempre que algo em si quebrava, sempre que o vira arrancar-se de uma qualquer emoção para um estado de fazer o que tem que ser feito.
virou-lhe as costas, era tempo de se ir embora. avançou sem vacilar até a ouvir atrás de si, puxando-o de seguida pelo braço - não tens nada a dizer? ultima oportunidade...
- tenho... estragaste-me a saída...
- continuas uma besta... podes-te ir embora...
- sempre pude...

saiu do quarto, percorreu o corredor como se estivesse ausente, passageiro do seu próprio corpo.
- vais-te embora assim? nunca me enganaste...
parou. lentamente, sem pressas virou-se para o corredor, via-a na porta do quarto, braços cruzados diante do peito, olhar de desafio e soberba que ela vestia de uma forma tão estranha para si...
- não percebo...
- nunca foste muito esperto...
sorriu - não percebo se tinhas uma mascara antes e caiu agora, se eras o que via antes e por alguma coisa de alguma forma mudaste... seja o que for... não te reconheço.
- foste tu que fizeste esta merda, não me ponhas as culpas que eu...
avançou até ficar com o rosto desconfortavelmente perto do dela
- então diz-me o que eu fiz.

aguardou por uma resposta que não veio, nem sequer perdida em entre as linhas agressivas que lhe eram dirigidas.

sentia-se mal, quer por ainda ali estar quer pelo tempo em que esteve e que já não ia recuperar.
recapitulou tanta coisa que podia ter feito se não tivesse optado por dar a ela esse seu tempo, a segunda parte do jogo com o Marselha em que o Tarik fez de Manteiga e o Porto de Brando, a final do campeonato do mundo de Rugby...devia ter visto primeiro no calendário antes de lhe dizer que sim mesmo que fosse para irem comprar ovos ao supermercado para o jantar.
esperou que ela se cansasse, esperou que abrandasse e se perdesse nos raciocinios, esperou que não tivesse nada mais para dizer.
fitou-a. aguardou que voltasse a cruzar os braços diante do corpo, que se impacientasse com o seu silêncio até lhe ser insuportável.
- não tens nada a dizer? ao menos dizias qualquer coisa...
- ah... le roi est mort... vive le roi! viva eu!
- foda-se... tu sabes que eu ainda gosto de ti - aproximou-se para lhe tocar com a mão no rosto, como sempre fizera quando discutiam e o queria puxar de novo para si.
afastou-lhe a mão com delicadeza, sorrindo no gesto, fitou-a e respirou de peito aberto.
mergulhou o nariz no cabelo dela lentamente, aproximou-se sem pressa do ouvido onde se penduravam brincos que lhe comprara em lagos que ela usara no concerto de Dave Mathews a que tinham ido juntos...


- Elvis has left the building...

quinta-feira, 3 de julho de 2008

The Shape of things to came...

"... Acabei por exasperar pelo toque e entrei de vez, deitando-me, fechando os olhos e concentrando-me na pele, na minha pele quente, agradecida pelo toque da água..."



"... Deixei tombar a cabeça até ao seu apoio...de olhos fechados criei na minha mente um espaço, uma tranquilidade inexistente mas que saboreei e a que me agarrei com força até não conseguir conter a minha inexistência e a consciência esticar a corda puxando-me para o meu mundo real..."


"... nesse instante tudo parecia ser como antes, como sempre devia ter sido... mas não, não eram assim as coisas, antes pelo oposto eram os seus dias. Era como se a historia tivesse terminado sem o avisar..."





"... Vazios que carrego comigo, irei livre para onde a minha vontade me levar, irei por mim, por ti e conquistarei a minha liberdade para viver como quiser até ao fim dos meus dias..."

terça-feira, 1 de julho de 2008


"...Leave me out with the waste
This is not what I do
It's the wrong kind of place
To be thinking of you
It's the wrong time
For somebody new
It's a small crime
And I've got no excuse..."


Como se sentisse a inquietação quando a fitava, como se de alguma forma ali ao longe soubesse que era para si que olhava, só para si...
Como se o rodopiar sobre o seu eixo fosse um truque de mágica, os movimentos ondulantes, o rosto sereno, fosse tudo direccionado para o seu lugar, a sua cadeira ali no meio de tanta gente...
sabia ser somente mais um vulto sem rosto, um corno de ombros e cabelo, sem olhos boca ou expressão... mas mesmo assim era para si que a imaginava dançar.
abanou a cabeça e regressou a si, ao mundo real, afinal porquê que haveria de ser ele, estranho ou mais que isso fonte da sua inspiração? como se sentado na praia as nuvens se formassem para desenhar diante de si as imagens que de alguma forma algo lhe indicassem, a si e somente a si.
os ventos e as nuvens esvoaçarem diante de si para o agradar...
olhava não egoísta, querendo dela para si a atenção, mas na ternura de quem saboreia o embalo de uma música prestes a chegar ao seu fim, o corpo que se move lento e vagaroso, terminando o gesto com o chegar da luz, fim de actuação.


sábado, 28 de junho de 2008

Tango a Bella Charis


Ah nome pomposo para um texto...
difícil manter a expectativa... afinal... és tu soma das expectativas que carrego Charis, soma e total, modelo e juiz...
Vento... que alguém de ti um pouco desdenha, vento fresco - imagem que tanto adoro desfilhar em texto- rodopia em meu redor, como um doce que se sabe irá desfazer na saliva até se perder... efémero mas mais real que a tua dolorosa ausência... teimosa ausência. mas afinal... sois mulher.
em comparação temo ser injusto, ao reconhecer somente traços do teu rosto, do teu nariz fino mas vincado, na tua tez pálida mas prestes a encher-se escarlate das tuas exaltações.
muito sexy essa tua imagem.
como se estivesse ausente durante o concerto do Galliano, ninguém sentado ao meu redor, nem ninguém em palco senão tu, em forma de melodia.
flutuando como o tal já citado vento até mim, sobre mim, puxando-me para um espaço qualquer onde somos mais que matéria, somos... espaço.
Não sei se foi ao pintar-te em quadro, ao escrever-te em livro, ou somente ao reconhecer-te no sorriso de alguém que até gostava que fosses tu... não sei se foi quando a senti tão perto do meu peito, o seu calor, a tensão do baloiçar ao som da música, a ideia de que ao menos tentar não lhe pisar os sapatos era simpático, e depois, num futuro não muito distante, esse breve lampejo teu na terra, na minha terra, ela fosses tu.


quando os teus itens - sim porque tive que criar itens de aproximação, há que ter critério rapariga - se vão preenchendo em minha surpresa na perfeição, da-se o fenómeno da retracção, da dúvida, ou mesmo da pura cagufa de quem receia simplesmente saltar e mergulhar para a onda sem receios, desconforto da sensação que é a onda certa, é deitar na prancha e remar remar até levitar-mos e dar-mos por nós de pé... é a dúvida que se instala após uma tão longa espera... ah charis, mulher, femea... ou simplesmente tu.


para quando sentir aquela imagem que tenho tua, o teu cabelo dourado entre os meus dedos da mão esquerda - porquê esta imagem não sei, mas tenho-a.
ou então aquela outra fugaz de um qualquer acordar ao teu lado - ou tu em meu redor- e a meio do teu corpo fitar-te ao saber-te sorrir.

sentir-te sorrir.
(principalmente se isso fosse a meio de um beijo...)

(daqueles demorados e badalhocos)

(badalhocos porque sou um romântico...)

a musica termina, ou sendo neste caso um tango, explode para o seu épico final - e para nos prostrarmos em abraço majestosos numa posição Tangueira....

não há palavras, mesmo que as invente presunçoso, que descrevessem tal imagem... não há telas onde descubra essa mesma imagem.

só fragmentos teus que apanho aqui e ali, a espaços, pequenos gestos teus para não desanimar na minha demanda pela tua pessoa, gestos generosos as vezes, frustrantes todas essas mesmas vezes... de tão perto e nunca um todo.... só os fragmentos que vós bela senhora na sua bondade... ah caraças...

tanto tempo na ausência que na presença sou um estranho.
peço-te que todas aquelas pequenas partes - os tais itens - se expandam, se confirmem e engrandeçam para ser mais facil acreditar, mais facil tanta coisa que agora é dificil senhora...

rodopiamos em abraço, acelaramos o movimento, e subitamento com a melodia encontramo-nos imóveis num qualquer salão - quiça aquele da fotografia em milão...

fim de música.