segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A casa.

Abriu o portão da casa que anos atrás fora sua.
Arrastou o metal sobre a pedra, entrou.
Olhou à sua volta, não sorriu.
A tinta gasta do muro então branco, que pintara durante o verão depois da praia, agora meio tapado pela erva alta do que fora então... relva verde.

Olhou para a casa, paredes sujas, portadas gastas, um alpendre que fora seu conforto em tantos dias, no silêncio, no respirar pesado dos seus cães aos seus pés enquanto se deixava ficar no embalo do mar ao longe.

Entrou na casa.

Sem surpresa, era continuação do exterior.

As paredes descuidadas, as madeiras pálidas sem cor, o tempo de silêncio que sentia ter dominado todo o espaço até se tornar a sua natureza.

Era uma casa com luz, sem brilho, sem alma.

Não se deixou vencer pelo sentimento triste que o invadia, subiu as escadas a correr para o seu antigo quarto, como antes.

Um cheiro suave a velho pelo corredor até ao quarto.
Abriu a porta e irritou-se.

O mesmo desolamento, a mesma sensação de vazio em algo que se perdeu.

Estava a ficar revoltado.

Entrou no escritório, agora sem livros, agora sem cor.

Sentiu-se a explodir.

Confrontou-se, perguntou a si mesmo se ia ficar revoltado, se ia ficar ali arruinado numa casa que tantos anos... tantas recordações...

Desceu as escadas, recolheu os livros, os poucos que ainda lá estavam seus, tudo o que ali lhe pertencia.
A sua última material ligação aquela casa.

Fechou a porta, avançou para o portão.
Saltou sobre este, como antes, quando novo, quando fazia ali sua casa nos Verões em família.

Entrou no carro, arrancou.

Não mais - sentia como certeza inquestionável - não mais voltaria ali.

Finalmente.



2 comentários:

isabel disse...

"a casa do mar" é um conto da sophia de mello breyner que está no livro "histórias da terra e do mar". pensei que no início ia ser um texto desse género, mas naaaa, era muito maricas para ser escrito por ti! devias ler anyway.

(e ainda que o escrevesses, ganhavas o prémio do hetero do ano)

André disse...

Tenho ideia que cheguei a fazer um trabalho no primeiro ano da faculdade sobre esse conto... no longínquo ano de 2001 - tou velho.

Vou ver se encontro para ler/reler.

(eu ganho sempre o prémio de hetero do ano, podia ter uma pila em cada mão e outra na boca que mesmo assim... ganhava o prémio de hetero do ano!)

(a cena das pilas é de um filme, não minha)

(no homo)