quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Iria doer muito...




"...You're black eyed soul
You should know
That theres nowhere else to go
My black eyed boy
You will find
Your own space and time.."


black eyed soul.

Abriu o armário com receio. tinha acima de tudo receio do que podia encontrar enquanto estava à procura. tropeçar em fragmentos do passado pelo meio e divagar sobre estes... porra, eram somente uns bilhetes, cartas curtas e de pouco texto, coisas pequenas e frágeis que não arrumara e havia muito que não olhava para elas... eram os restos dela, da presença dela...
podia simplesmente agarrar numa pá e sem olhar atirar tudo para a fornalha...
podia tambem não ser masoquista e ser um gajo esperto o que teria dado para evitar esta ansiedade dolorosa por antecipação, mas isso já era pedir muita coisa.
não lhe bastava a dificuldade de em sitios, sitios por onde passava ser envadido por recordações boas mas tristes, saudade mas dolorosa saudade, agora era perseguido por essas mesmas emoções dentro do seu quarto.
não os leu enquanto os encontrava, juntou os manuscritos num monte e colocou-os sobre a cama.
respirou fundo e sentou-se ao lado do monte de papeis... mais uma vez porra, eram somente papeis! folhas de cadernos, pequenas notas, pequenas coisas que por acaso tinha guardado consigo...
sorriu ao pensar que provavelmente somente ele teria esta dificuldade ao olhar para o seu passado comum, ela de certeza que já tinha soltado esse lastro, e sem cerimónias ou este receio estúpido... mas enfim, era o que era e já não lutava contra si mesmo nestas coisas... aceitava e fosse o que fosse... (ou te casas comigo ou enforco-o... seja como for há festa!)
podia era não ser tão dificil...
olhou para dois postais, colónia... onde jogava o madsen... onde ela fora tropeçando e aniquilando a ideia de irem os dois juntos para outra viagem qualquer... estávam vazios, somente imagens...
foram faceis de por de lado.
preparou-se para a placagem, segurou com força a bola e deixou que o Chabal emocional o atingisse...
está a ser rápido pensou... e não esta a custar assim tanto afinal... meus senhores estamos de parabens! despachou os bilhetes, um natural e esperado aperto (suave aperto o que era bom) na garganta, alguma melancolia, mas nada de um vagalhão, nada que já não fosse o seu natural estado de espirito nos ultimos tempos...
faltava somente um para fechar o estaminé e podermos todos ir para casa com o sentimento de dever comprido.
este era diferente, pressentiu quando o segurou entre os dedos.
dobrado, dentro de um envelope improvisado com o seu nome escrito.
abriu o envelope com cuidado, com vagar. abriu a folha de caderno dobrada e sentiu-se prometeu diante de um fosforo, não era a chama eterna mas era parte desta... e tinha o poder de o esmagar, de o prender e dominar...
sinceramente tentou, tentou ler a carta, sabia que poderia perder o combate e não sobreviver ao confronto mas tentou mesmo assim - cyrano dizia que por ser em vão é que é belo... - mas antes de começar, de linha após linha da letra redonda saber estar a enterrar-se nas rápidas e implacáveis correntes do vazio... do vazio que fica a quem não vai embora.
tentou ler mas uma frase e somente uma o prendeu, uma fora o suficiente e tropeçara nela por acaso, mas era tudo o que havia para ler...

"nunca te separes de mim... iria doer muito"

ignorou o amo-te que se seguia, era somente essa frase, essa simples frase, essa... coisa... cruel.
era cruel.

durante uns largos minutos não sabia como pegar no bicho, leia-se a situação. não sabia o que pensar ou fazer.
havia a vontade de dizer - mas e se fores tu já podes? tá mal...
havia a vontade de perceber que personagem de ficção (ciêntifica) era esta que lhe escrevera uma carta apaixonada, numa folha de um caderno com uma letra redonda sobre uma prenda que lhe fizera pelos anos...
Romeiro romeiro quem és tu que me pedes para não te dar solidão?
tinha sido simpático ao tempo ter corrido veloz sobre o assunto e voltar a si de manhã, teria sido sem dúvida mais dramático para a situação, mas somente se tinham passado uns minutos... e como uns minutos chegavam para tudo mudar de rumo, de vida e disposição.
colocou de parte o envelope, guardou numa caixa o resto das cartas e coloco-a de molho entre outras várias caixas para outro dia. tinha a ideia que não se deitam fora sentimentos - pelo menos faz-se uma fogueira com eles, não só é mais dramático como é sempre hipnotizante o comsumir das coisas pelo fogo, como se renascessemos das cinzas do que queimámos - fenix Oldschool.


sobrava o envelope, imóvel sobre a cama como se nada fosse com ele, e então, num suspiro com força mas determinado, vestiu o casaco e colocou o manuscrito no bolso deste.

estava frio na rua, normal no mês de fevereiro. tranquilo e sem pressas caminhou para o carro.
sentou-se e ligou o rádio, não muito alto, não num posto em particular, somente pela companhia.


ligou o carro. refez mentalmente a lista de tudo o que precisava e se o tinha trazido.
estava tudo pronto, warp speed, weapons at maximum... era destravar o carro e comprir o combinado. o auto-combinado pois fora um pacto solitário.


retirou do bolso o envelope, fitou-o sem o abrir, sabia bem o que lá estava escrito não havia a necessidade de o abrir mais uma vez.

sorriu, sorriu maliciosamente e arrancou veloz.
primeira curva, segunda curva, terceira curva e meteu a quarta mudança, estava livre.
Livre de uma sombra que o seguia à tanto tempo por ter sido parvo e de boa vontade deixar-se levar por coisas... idiotas como pactos feitos num só sentido - como quando o irmão era novo e podia pedir as cartas todas sem que se lhe pudesse pedir reis ao peixinho - desses pactos mirambólicos que soam bem na ocasião desde que não haja chuva, faça sol e estejamos entre o meio dia e as quinze horas e meia do dia 30 de fevereiro.

estava livre, finalmente livre. era uma longa viagem até berlim, muitas horas, muitas horas sozinho para uma vida nova, para qualquer coisa que não isto que o rebentava dia após dia, direta após direta sem dormir, entregue aos seus pensamentos e às repetidas perguntas que fazia sem nunca ter resposta de quem as devia responder.
soltara todas as amarras do passado que agora finalmente era mesmo passado! eram ténues memórias que teria lá para trás na sua mente, depois das memórias da colecção de bollycaos que fez na quarta classe e de quando chegou ao fim do street fighter na mega drive pela primeira vez.

apenas levava consigo desses tempos - tempos idos de apenas meia hora atrás mas adiante, algo para não se esquecer nunca dos erros que cometera para nunca mais os fazer outra vez - ter boa memória não chega quando alcool, vitórias do porto e a claudia black o levavam a perder totalmente o discernimento.
era importante ter essa amarra ao passado, era importante não esquecer nunca o que se sofreu e o que se perdeu para não se ir novamente pelo mesmo caminho, era importante ter trazido o cacto consigo, era um amigo que tinha e lembrava-se sempre que o mudava de vaso... que as coisas que vêmos crescer e cuidamos também picam, afinal já o brel dizia que as rosas têem espinhos...


não se atiram papeis para o chão... vale mais parar o carro e meter-se no lixo!



notas - o cacto é real e chama-se rambo, sebastien chabal é um mágnifico e assustador jogador de rubgy francês, peter madsen é dinamarquês e joga no FC Koln de colónia, a música black eyed boy é do grupo texas, não comento o romeiro romeiro porque é impensável que alguém não o compreenda ou não saiba de onde surge essa referência!, fenix é uma ave mitológica que se acreditava renascer das cinzas e também o primeiro quadro que pintei no remoto ano de 1999, warp speed é uma referência à série e aos filmes Star treek, a citação "weapons at maximum" é uma piada da Série Stargate Sg-1 pois não faz o menor sentido dizer weapons at maximum mas fica fixe dize-lo, street fighter é de longe o melhor jogo de luta de sempre para consolas e a mega drive a melhor consola alguma vez criada, Cyrano de bergerac é um belissimo filme com gerard depardieu - pelo menos a citação a que me refiro pois cyrano existiu e escreveu um excelente livro, o Porto ganha sempre mas dá sempre pica - melhor clube do mundo na ultima decada só em nivel de titulos conquistados, prometeu roubou o fogo aos deuses (que não ficaram propriamente satisfeitos que ele o tivesse Palmado), a claudia black... eh pá... a claudia black, nenhum papel foi atirado para o chão na criação desta história, o papel existe realmente e a frase citada foi retratada fielmente à realidade actual - os factos não são pura coincidência, o jorge (irmão) realmente fazia batota ao peixinho e tinha essa regra estranha dos reis.



(Sebastian Chabal - ao centro na foto)

(Claudia Black)

"ou te casas comigo ou enforco-o... seja como for ha festa" - robin hood men in tights pelo grande prince john


FIM

Um comentário:

a casa da mariquinhas disse...

Passei aqui por acaso e deparei-me com este belíssimo texto!
Parabéns, felicidades.
Um abraço
Mariazita