segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Dois peixes num Aquário.

No domingo, qualquer coisa à volta das 15h quando estava no Hall dos elevadores do sexto piso do Hospital de Cascais num combate titânico com um café recém tirado da máquina - O mostrengo estava cheio demais, quente demais e eu consegui javardar a minha retardada pessoa num ápice... resumindo numa palavra:  Patético

Dizia, estava no hall dos elevadores quando a vejo surgir pelo corredor do lado direito.

Fico com os palitos no ar presumindo pelo branco da roupa estar na presença de uma jovem médica, tento corrigir a atrapalhação e o caos do ataque que fui vitima pelo café.
Endireito as costas, levo o copo à boca numa mistura de anúncio de relógios com perfume para homem...


É fundamental dar aquela postura pás damas...

Reparo que não é bata o que trás vestido, é roupão.
Reparo que está de chinelos e o rosto que me sorrira num primeiro instante está carregado e fechado.

E Passa-me a taradice...
Foda-se, o que fazes tu aqui mulher? o que fazes tu neste piso?

Vejo-a entrar no elevador, encostar-se na parede e ficar de frente para mim quando as portas se fecham entre nós.

Atiro o copo para o lixo, ia ajeitar o cabelo mas lembro-me que tenho a mão peganhenta do ataque vil e selvático de que fui vitima.

Carrego no botão para chamar o elevador, a porta abre e vejo-a novamente encostada à parede, concentrada no seu telemóvel.

A viagem é rápida. Apesar de estar mais perto da porta faço um compasso de espera e com a mão indico-lhe que saia primeiro.

Ela sorri e agradece.

Eu vagueio pelo hall até encontrar uma cadeira vaga, perto da janela.

Sento-me e ligo o ipod quando recomeça a chover torrencialmente.

O tempo passa e abstraio-me do que me rodeia perdido em pensamentos vagos.
Estava tão distraido que não reparei que ela se tinha sentado ao meu lado.

Puxa-me a manga.

Retiro os phones.

- O que estás a ouvir?

Entrego-lhe um dos phones e paro a meio caminho quando percebo que vou por em jogo a minha reputação ao lembrar-me da música que tocava nesse momento

- Ah... isto está no aleatório!!

Ela coloca o phone, aguarda uns segundos e tira-me o ipod das mãos

- No aleatório? isto já vai nos dois minutos e quinze da música, podias ter mudado de música mas não... ao menos admitias!!

Dito isto entrega-me o outro phone livre que estava sobre o meu colo.

Passam coisa de trinta segundos da música quando me pergunta se eu sei a música de cór.

Admito que sim.

Ela acena negativamente com a cabeça em reprovação.
A música chega ao fim e ela carrega para trás, para ouvirmos outra vez a mesma "peróla" emasculativa que eu estava a ouvir "acidentalmente"

A música termina e ela tira o phone, eu acompanho-lhe o gesto.

Não me recordo quando tempo passou até ela voltar a falar novamente.

- Olha para o que chove... parece que somos nós o aquário e lá fora o mundo é água... somos o equivalente a dois peixes dentro de um aquário...

Ela repara que a ultima frase fez-me sorrir

- O que foi?

- Nada, lembrei-me de uma piada...

- Conta!

- É idiota...

- E? conta!

- Estão dois peixes dentro de um tanque... vira-se um para o outro e diz: -  "olha lá, tu sabes conduzir esta merda??"

Durante meio segundo entro em pânico na expectativa da sua reacção à (fantástica) piada.

Sucesso! estrondoso sucesso, estamos todos de parabéns, eu a minha equipa, o meu agente... quero agradecer à minha mãe, quero agradecer ao meu irmão e mandar um beijinho para o Dédéu que o amo muito e...

e do riso... dou por ela a chorar.

Não sei o que fazer ou dizer...

- Hey...

(boa André)

Aproximo-me dela, tiro-lhe a farripa de cabelo do rosto e ela sorri, suspira

- Desculpa... é que eu... eu estou tão farta de estar aqui...

- Por instantes assustaste-me, pensei que tinha sido a piada

- Também! que piada terrível!!!

- Não é nada terrível! é fantástica como todas as minhas piadas

- Ah sim? conta mais...

- De peixes?

- Tu tens mais piadas com peixes??

- Tenho uma...

- É tão má como esta?

Fito-a  simulando estar magoado com a observação.Remexo na carteira e entrego-lhe um papel  - dos vários- que tenho dentro da mesma.







Aponto para o que está sozinho do lado direito

- Este aqui deu um peido...

Ela cospe-se, ela engasga-se, ela tosse-se toda durante uns minutos.
Pára de rir e volta a olhar para o papel retomando o ciclo até conseguir controlar a respiração.

Ficou do meu lado mais uns minutos.

- Tenho que me ir deitar, estou cansada.

Entrego-lhe o desenho, ofereço-o como recordação.

- Se eu fico com isto... como é que contas a piada outra vez?

- Se desenhei uma, desenho duas.

Ela sorri, coloca o desenho no bolso do roupão, fuça com o pé atrás do chinelo de hospital que estava a teimar em fugir e levanta a mão para me dizer adeus

- Vê se melhoras depressa

Virou-se e partiu.

Segui-a com a vista até à recepção, vejo-a aguardar pelo elevador desejando egoísta que este demorasse mais tempo, para poder de alguma maneira prolongar o momento...

Vejo-a deslizar a mão pelo roupão para o bolso. Pensei sinceramente que ia controlar o telemóvel mas não, foi o meu desenho que tirou...
Era o meu desenho que a fazia rir quando as portas do elevador se fecharam entre nós.

Notas:

A música que estava a ouvir:  The Flame dos Cheap Trick




O desenho que lhe dei era a versão final, tinha em casa um rascunho - o que coloquei acima a meio do texto.

Isto leva a questionar o facto de eu ter desenhado duas vezes um peixe a dar um peido.

Sou um perfeccionista...

Não, não sei o nome dela.

4 comentários:

Elsar disse...

são posts como este que ainda me fazer seguir blogs :)**

m disse...

uau a serio! ahaha e ooooh , emoções misturadas e como sempre a tua escrita muito prºopia!

Morce disse...

Tão bonito

Roxanne disse...

as pessoas nos hospitais são diferentes, especiais, com uma forma de encarar a vida de uma forma mais relaxada e verdadeira.

e muito poucas esquecem quem as fez sorrir lá dentro!